A Liberação do Espírito
Watchman Nee
Publicação da
CLC Editora
Caixa Postal 700
12.200 São José dos Campos (SP)
Título do original em inglês
THE RELEASE OF THE SP1RIT
1ª edição brasileira — agosto 1983
10.000 exemplares
Tradução de
GORDON CHOWN
Capa de Hermany Rosa Vieira
Número de código para pedidos: 020.04003-8
Publicado no Brasil com a devida autorização de Sure Foundations
Inc., Coverdale, Indiana, U.S.A. e com todos os direitos reservados
em português pela
Publicação da
CLC Editora
Caixa Postal 700
12.200 São José dos Campos (SP)
ÍNDICE
Introdução
..............................................................................................07
1. A
Importância do Quebrantamento ..................................................09
2. Antes e
Depois do Quebrantamento ................................................14
3.
Reconhecendo "a Coisa em Matos" ..................................................19
4. Como
Conhecer o Homem ................................................................23
5. A Igreja
e a Obra de Deus .................................................................33
6. O
Quebrantamento e a Disciplina .....................................................60
7. A
Separação e a Revelação ................................................................33
8. Que
Impressão Damos? .....................................................................43
9. A
Meiguice e o Quebrantamento ......................................................47
10. Dois
Caminhos Muito Diferentes ....................................................50
PREFÁCIO DA
EDIÇÃO EM INGLÊS
Ao lermos este manuscrito ficamos
impressionados pelo fato de ser ele uma mensagem vital que precisa ser
compartilhada e conhecida por todos os que pertencem ao Senhor e O buscam mais,
e anseiam por ser um canal para a Sua Vida. Não se pode ler muito desta matéria
sem chegar a sentir o anseio e a oração de Watchman Nee para que a Igreja
conheça o Senhor da maneira mais integral, que o povo de Deus seja cada vez
mais frutífero para Ele, que Ele ache um mínimo de impedimento em nós, e que Ele
possa ser plenamente liberado através do nosso espírito vivificado e
controlado.
Certamente é esta a hora em que o campo da
batalha está na alma. Ao passo que o Senhor está procurando trabalhar através
do espírito vivificado, Satanás está procurando trabalhar através da vida
natural, a da alma que não foi submetida ao controle do Espírito.
Durante seus muitos anos de labutar com
cooperadores, o Irmão Nee viu claramente a necessidade total do quebrantamento.
É quase como se ele estivesse pessoalmente aqui em nosso cenário religioso,
sentindo a grande necessidade do quebrantamento entre os cooperadores cristãos.
Talvez haja alguns que são despreparados para uma dose tão amarga de remédio
espiritual, mas cremos que qualquer pessoa com discernimento e fome concordará
que o romper dos poderes da alma é imperativo, se é que o espírito humano deva
expressar a Vida do Senhor Jesus.
Nesta hora presente, em que o cenário
religioso está ocupado com o subjetivismo e as experiências emocionais, parece ainda
mais importante que cada um dos filhos de Deus compreenda sua constituição básica
e a função do seu espírito, da sua alma e do seu corpo. Para aqueles que
realmente estio prosseguindo para o prémio, para a soberana vocação, esta é, verdadeiramente,
uma verdade altamente imperativa. Confiamos, portanto, que esta mensagem
chegará a todas as partes do Corpo de Cristo e leve a efeito, uma liberação da
Sua vida. Que assim seja, para Sua eterna glória, louvor e honra!
Os Editores
INTRODUÇÃO
Para o leitor apreciar devidamente estas
lições, talvez sejam úteis algumas declarações preparatórias:
Primeiramente, devemos ficar acostumados com a
terminologia que o Irmão Nee emprega. Escolheu chamar o espírito do homem de
"homem interior"; à alma do homem, chama de "homem
exterior" e para o corpo emprega o termo "homem periférico." No
diagrama retraíamos este fato. Será útil, também, reconhecer que Deus, ao planejar
o homem originalmente, pretendeu que o espírito do homem fosse Seu lar ou Sua
residência. Assim, o Espírito Santo, formando uma união com o espírito humano,
deveria governar a alma, e o espírito e a alma, usariam o corpo como meio de
expressão.
Em segundo lugar, quando Watchman Nee fala em
destruir a alma, talvez pareça que está usando uma palavra demasiadamente forte,
como se fosse subentender o extermínio dela. Na realidade, a substância total
da sua mensagem claramente indica que a alma, ao invés de funcionar
independentemente, deve tornar-se o instrumento ou vaso do espírito. Desta maneira,
é a ação independente da alma que deve ser destruída. T. Austin-Sparks indicou
com sabedoria:
"Devemos
tomar cuidado para que, ao reconhecermos o fato de que a alma tem sido
seduzida, levada ao cativeiro, escurecida e envenenada com seus próprios
interesses, não a consideremos como algo a ser exterminado e destruído nesta
vida. Isto seria o asceticismo, uma forma de budismo. O resultado de qualquer
comportamento deste tipo usualmente não passa de outra forma de uma doutrina da
alma em grau exagerado; talvez o ocultismo. A totalidade da nossa natureza
humana está em nossa alma, e se a natureza for suprimida numa direção, tomará vingança
numa outra direção. É exatamente o problema de muitas pessoas, se somente o
soubessem. Há uma diferença entre uma vida de supressão e uma vida de serviço. A
submissão, a sujeição e a posição de Servo no caso de Cristo, diante do Pai,
não era uma vida de destruição da alma, mas, sim, de descanso e de deleite. A escravidão,
no mau sentido, é o destino dos que vivem inteiramente na sua própria alma.
Precisamos revisar nossas ideias acerca do serviço, pois está ficando cada vez
mais comum pensar que o serviço é cativeiro e escravidão, quando, na realidade,
é uma coisa divina. A espiritualidade não é uma vida de supressão. Esta é
negativa. A espiritualidade é positiva; é uma vida nova e adicional, não a vida
antiga, lutando para obter o domínio de si mesma."
Em terceiro lugar, devemos ver como é
necessário que a alma receba um golpe fatal mediante a morte de Cristo, quanto
às suas forças próprias e autogoverno. É como no caso de Jacó: depois de Deus o
ter tocado, passou o resto da sua vida manquejando. Isto ilustraria claramente
que sempre deve ficar registrado na alma o fato de que não pode nem deve agir a
partir de si mesma como sendo a fonte. Mais uma vez, T. Austin-Sparks escreve: "Como
um instrumento, a alma deve ser conquistada, dominada e regida com relação aos
caminhos mais sublimes e diferentes de Deus. É mencionada tão frequentemente nas
Escrituras como sendo algo sobre o qual devemos obter e exercer a autoridade.” Por
exemplo:
"É
na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas."
Lucas21:19
"Tendo
purificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade."
1 Pedro 1:22
"O
fim da vossa fé, a salvação das vossas almas."
1 Pedro 1:9
Finalmente, nestas lições, devemos ver por que
Watchman Nee insiste que a alma (o homem exterior) seja quebrantada, dominada,
e renovada para o espírito usá-lo. T. Austin-Sparks disse:
"Quer
já tenhamos a capacidade de aceitá-lo, quer não, o fato é que se vamos avançar
com Deus de modo integral, todas as capacidades e energias da alma para saber, compreender,
sentir e fazer, chegarão ao fim, e nós — naquele lado — ficaremos desnorteados,
estonteados, paralisados e incapazes. Somente então, a compreensão, o
constrangimento e a energia, novos, diferentes e divinos, nos impulsionarão para
a frente ou manter-nos-ão em andamento. Em tais tempos, teremos de dizer a
nossa alma: "Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa (SI 62:5); e
"Ó minha alma, vem comigo seguir ao Senhor." Mas quanta alegria e
fortaleza, é quando, depois da alma ter sido constrangida para entregar-se ao
espírito, a sabedoria e glória mais sublimes são percebidas na sua vindicação.
É então que "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se
alegrou em Deus, meu Salvador" (Lucas 1: 46). O espírito fêz alguma coisa, a alma a faz — note
os tempos dos verbos.
Deste
modo, a alma é essencial para a plenitude da alegria, e DEVE ser trazida
através da escuridão e da morte da sua própria capacidade a fim de aprender as realidades
mais altas e profundas para as quais o espírito é o primeiro órgão e
faculdade." *
Ao chegarmos perto do fim destas lições,
teremos achado o segredo da vida frutífera para ELE. Não caia na armadilha, conforme
tantas pessoas caíram, de procurar reprimir sua alma ou desprezá-la; seja, pelo
contrário, forte de espírito, de modo que sua alma seja ganha, salva e levada a
servir à Sua plena alegria. O Senhor Jesus determinou que achemos descanso para
as nossas almas - e isto, diz Ele , vem por meio do Seu jugo, - o símbolo da união
e do serviço. Apreciaremos, então, como a alma acha seu maior valor em servir,
não em dominar. É verdade que, até que seja quebrantada, a alma quer ser
"senhor". Através da Cruz, pode tornar-se um "servo" muito útil.
______________________________
* (Citações de WHAT IS MAN, de T.
Austin-Sparks)
CAPÍTULO 1
A IMPORTÂNCIA DO QUEBRANTAMENTO
Qualquer pessoa que serve a Deus descobrirá,
mais cedo ou mais tarde, que o grande impedimento para a sua obra não são
outras pessoas mas, sim, ela mesma. Descobrirá que seu homem exterior e seu
homem interior não estão em harmonia, pois os dois tendem para direções
opostas. Sentirá, também, a incapacidade do seu homem exterior submeter-se ao
controle do espírito, tornando-o, assim, incapaz de obedecer aos mandamentos
mais sublimes de Deus. Perceberá rapidamente que a maior dificuldade acha-se no
seu homem exterior, pois este o impede de fazer uso do seu espírito.
Muitos dos servos de Deus nem sequer conseguem
fazer as obras mais elementares. Normalmente, devem ser capacitados pelo
exercício do seu espírito a conhecer a palavra de Deus, a discernir a condição
espiritual doutra pessoa, entregar as mensagens de Deus com unção e receber as
revelações de Deus. Mesmo assim, devido às distrações do homem exterior, parece
que seu espírito não funciona apropriadamente. É basicamente porque seu homem
exterior nunca foi tratado. Por esta razão, o reavivamento, o zelo, o implorar
e as atividades não passam de um desperdício de tempo. Conforme veremos, há apenas
um só tratamento que pode capacitar o homem a ser útil diante de Deus: o
quebrantamento.
O Homem Interior e o Homem Exterior
Note como a Bíblia divide o homem em duas
partes: "Porque, no tocante ao homem
interior, tenho prazer na lei de Deus" (Rm 7: 22). Nosso homem
interior deleita-se na Lei de Deus. ".
. . que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem
interior" (Ef 3:16). E Paulo também nos informa: "Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso
homem interior se renova de dia em dia" (2 Co 4:16).
Quando Deus vem habitar em nós mediante o Seu
Espirito, a Sua vida e o Seu poder, entra em nosso espírito, que estamos chamando
de "homem interior." Fora deste homem interior há a alma, na qual
funcionam nossos pensamentos, nossas emoções e nossa vontade. O homem
periférico é nosso corpo físico. Assim, falaremos do homem interior como
sendo o espírito, do homem exterior como sendo a alma, e do homem periférico
como sendo o corpo. Nunca devemos nos esquecer de que nosso homem interior é o
espírito humano onde Deus habita, onde Seu Espírito Se combina com nosso
espírito. Assim como nós vestimos roupas, assim também nosso homem interior
"veste" um homem exterior: o espírito "veste" a alma. E, de
modo semelhante, o espírito e a alma "vestem" o corpo. Está bem evidente
que os homens geralmente estão mais conscientes do homem exterior e do
periférico, e dificilmente reconhecem ou entendem seu espírito, de modo algum.
Devemos saber que aquele que pode trabalhar
para Deus, é aquele cujo homem interior pode ser liberado. A dificuldade básica
de um servo de Deus acha-se no fracasso do homem interior de irromper pelo
homem exterior. Logo, devemos reconhecer diante de Deus que a primeira
dificuldade que enfrentamos na obra não está nos outros mas, sim, em nós mesmos.
Nosso espírito parece estar embrulhado num invólucro de modo que não pode
facilmente irromper de lá. Se nunca aprendemos como liberar nosso homem
interior por meio de irromper pelo homem exterior, não temos capacidade de servir.
Nada pode estorvar-nos tanto quanto este homem exterior. Se nossas obras são
frutíferas ou não, depende de se nosso homem exterior foi quebrantado pelo
Senhor de modo que o homem interior possa passar pelo quebrantamento e se manifestar.
Este é o problema básico. O Senhor deseja quebrar nosso homem exterior a fim de
que o homem interior possa ter uma via de saída. Quando o homem interior for
liberado, tanto os descrentes quanto os cristãos serão abençoados.
A Natureza Tem Sua Maneira de Quebrar
O Senhor Jesus conta-nos em João 12: "Se o grão de trigo, caindo na terra,
não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto." A vida
está no grão de trigo, mas há uma casca, uma casca muito dura, no lado de fora.
Enquanto aquela casca não for rachada e aberta, o trigo não pode brotar nem
crescer. "Se o grão de trigo, caindo
na terra, não morrer . . ." Que morte é essa? É o arrombar da casca
mediante a cooperação da temperatura e da umidade no solo. Uma vez que a casca
é fendida e aberta, o trigo começa a crescer. Então, a questão aqui não é se há
vida dentro, mas, sim, se a casca externa foi rachada.
A Escritura continua, dizendo: "Quem ama
a sua vida (Grego, alma) perde-a; mas aquele que odeia a sua vida
(Grego, alma) neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna" (v. 25).
O Senhor nos mostra aqui que a casca externa é nossa própria vida (a vida da
nossa alma), ao passo que a vida interior é a vida eterna que Ele nos deu. Para
permitir que a vida interior se manifeste, é imperativo que a vida exterior
seja substituída. Se o exterior permanecer intato, o interior nunca poderá aparecer.
É necessário (neste escrito) que dirijamos
estas palavras para aquele grupo de pessoas que possuem a vida do Senhor. Entre
aqueles que possuem a vida do Senhor podem ser achadas duas condições
distintas: uma inclui aqueles em que a vida é confinada, restringida, aprisionada
e incapaz de se manifestar; a outra inclui aqueles em que o Senhor forjou um
caminho, e a vida deles, portanto, é liberada.
A pergunta, pois, não é como obter a vida,
mas, sim, como permitir que esta vida apareça. Quando dizemos que temos necessidade
de que o Senhor nos quebrante, não é meramente um modo de falar, nem é apenas
uma doutrina. É vital que sejamos quebrantados pelo Senhor. Não é que a vida do
Senhor não possa cobrir a terra, mas, sim, que Sua vida está sendo aprisionada
por nós. Não é que o Senhor não possa abençoar a igreja, mas, sim, que a vida
do Senhor está tão confinada dentro de nós que não se manifesta. Se o homem
exterior permanecer intato, nunca poderemos ser uma bênção para a Sua igreja, e
não podemos esperar que a palavra de Deus seja abençoada através de nós!
O Vaso de Alabastro Deve Ser Quebrado
A Bíblia conta acerca do nardo puro. Deus, deliberadamente
usou este termo "puro" na Sua palavra para mostrar que é
verdadeiramente espiritual. Mas se o vaso de alabastro não for quebrado, o
nardo puro não fluirá. Por estranho que pareça, muitos ainda estão valorizando
demasiadamente o vaso de alabastro, pensando que seu valor excede o do
unguento. Muitos pensam que seu homem exterior é mais precioso do que seu homem
interior. Este fica sendo o problema na igreja. Uma pessoa tem em grande estima
sua habilidade, pensando que é bem importante; outra valoriza suas próprias
emoções, e se estima como pessoa importante; outras têm alta consideração por
si mesmas, e sentem que são melhores do que as demais, que sua eloquência ultrapassa
a das demais, que sua rapidez de ação e exatidão de julgamento são superiores,
e assim por diante. Nós, porém, não somos colecionadores de antiguidades; somos
aqueles que desejamos cheirar somente a fragrância do unguento. Sem quebrar o
exterior, o interior não surgirá. Deste modo, individualmente não temos
qualquer fluir, como também a igreja não tem um caminho vivo. Por que, pois,
devemos considerar-nos tão preciosos, se nosso interior retém a fragrância, ao
invés de liberá-la?
O Espírito Santo não cessou de operar. Um
evento após outro, uma coisa após outra, vem a nós. Cada operação disciplinar tem
um só propósito: quebrar nosso homem exterior a fim de que nosso homem interior
possa se manifestar. Aqui, porém, está nossa dificuldade: ficamos impacientes
por causa de ninharias, murmuramos diante de perdas de pequena monta. O Senhor
está preparando um modo de usar-nos, mas, mal Sua mão nos tocou, sentimo-nos
infelizes, até ao ponto de contendermos com Deus e de nos tornarmos negativos
em nossas atitudes. Desde que fomos salvos, fomos tocados várias vezes e de
várias maneiras pelo Senhor, e tudo com o propósito de quebrar nosso homem exterior.
Quer tenhamos consciência disto, quer não, o alvo do Senhor é quebrar este
homem exterior.
Desta maneira, o Tesouro está no vaso de
barro, mas se o vaso de barro não for quebrado, quem poderá ver o Tesouro que
está dentro? Qual é o objetivo final da operação do Senhor em nossas vidas? É
quebrar este vaso de barro, é quebrar nosso vaso de alabastro, é arrombar nossa
casca. O Senhor anseia por achar um meio de abençoar o mundo através daqueles que
pertencem a Ele. O quebrantamento é o caminho da benção, o caminho da fragrância,
o caminho da frutificação, mas também é um caminho salpicado de sangue. Sim, há
sangue de muitas feridas. Quando nos oferecemos ao Senhor para fazer a Sua obra
não podemos nos dar ao luxo da morosidade de nos pouparmos. Devemos deixar que
o Senhor rache totalmente nosso homem exterior, de modo que Ele possa achar um
caminho para Suas operações.
Cada um de nós deve descobrir para si mesmo
qual é a mente do Senhor para sua vida. É um fato muitíssimo lamentável, que
muitos não sabem qual é a mente ou intenção do Senhor para suas vidas. Quanto mais
precisam de que Ele abra os seus olhos, para ver que tudo quanto entra nas suas
vidas pode ler significado. Entender o propósito do Senhor é ver muito claramente
que Ele visa um único objetivo: o quebrantamento do homem exterior.
Muitas pessoas, no entanto, antes mesmo que o
Senhor erga Sua mão, já estão aflitas. Oh! devemos reconhecer que todas as
experiências, problemas e provações que o Senhor nos envia são para nosso bem supremo.
Não podemos esperar que o Senhor nos dê coisas melhores, pois estas são as
melhores. Se alguém se aproximasse do Senhor, e orasse, dizendo: "Ó Senhor,
por favor, deixa-me escolher o melhor," creio que Ele lhe diria:
"Aquilo que Eu te dei é o melhor; tuas provações diárias são para teu
máximo proveito." Assim, o motivo por detrás de toda a providência de Deus
é quebrantar nosso homem exterior. Uma vez que isto ocorre e o espírito pode fluir,
então, começamos a exercitá-lo.
A Cronologia em
Nosso Quebrantamento
O Senhor emprega dois meios diferentes para
quebrar nosso homem exterior; um é paulatino, o outro é repentino. Para alguns,
o Senhor dá um quebrantamento súbito seguido por um paulatino. Com outros, o
Senhor dispõe para que tenham provações diárias constantes, até que, um dia,
leva a efeito um quebrantamento em grande escala. Se não for o repentino
primeiro, e depois o paulatino, então, é o paulatino seguido pelo repentino. Parece
que o Senhor normalmente trabalha conosco durante vários anos antes de poder realizar
esta obra de quebrantamento.
A cronologia está na mão dEle. Não podemos
encurtar o tempo, embora certamente o possamos prolongar. Em algumas vidas, o
Senhor pode realizar esta obra depois de uns poucos anos de trato; noutras, é
evidente que depois de dez ou vinte anos a obra ainda está incompleta. Isto é
muito sério! Nada é mais lastimável do que desperdiçar o tempo de Deus. Quão
frequentemente a igreja é atrapalhada! Podemos pregar com o uso da nossa mente,
podemos comover os outros com o uso das nossas emoções; mas se não sabemos usar
nosso espírito, o Espírito de Deus não poderá tocar as pessoas através de nós.
A perda será grande, se prolongarmos desnecessariamente o tempo.
Logo, se nunca antes nos consagramos de modo
total e inteligente ao Senhor, façamo-lo agora, dizendo: "Senhor, para o futuro da igreja, para o futuro do evangelho,
para o Teu caminho, e também para minha própria vida, ofereço-me sem condições,
sem reservas, nas Tuas mãos. Senhor, deleito-me em oferecer-me a Ti e estou disposto
a deixar-Te fazer toda a Tua vontade através de mim."
O Significado da Cruz
Ouvimos falar frequentemente acerca da cruz.
Talvez estejamos por demais familiarizado com o termo. Mas o que é a cruz,
afinal das contas? Quando realmente compreendermos a cruz, veremos que significa
o quebrantamento do homem exterior. A cruz reduz o homem exterior à morte;
racha a casca humana e a abre. A cruz deve quebrar tudo quanto pertence ao
nosso homem exterior — nossas opiniões, nossos modos, nossa habilidade, nosso
amor-próprio, nosso tudo. O caminho está claro, claro mesmo como o cristal.
Tão logo que nosso homem exterior é destruído,
nosso espírito pode sair facilmente para fora. Considere certo irmão, como
exemplo. Todos quantos o conhecem reconhecem que tem uma mente aguçada, uma
vontade dinâmica, e profundas emoções. Mas, ao invés de ficarem impressionados
por estas características naturais da sua alma, reconhecem que se encontraram com
seu espírito. Sempre que as pessoas estão tendo comunhão com ele, encontram um
espírito, um espírito limpo. Por que? Porque tudo quanto é da sua alma foi
destruído.
Tomemos como outro exemplo certa irmã. Todos
aqueles que a conhecem reconhecem que ela tem uma disposição pronta — rápida
para pensar, rápida para falar, rápida para confessar, rápida para escrever
cartas, e rápida para rasgar o que escreveu. Apesar disto, os que se encontram
com ela não se encontram com sua rapidez, mas sim, com seu espírito. Ela é uma
pessoa que foi totalmente destruída e que se tornou transparente.
Esta destruição do homem exterior é uma
questão fundamental. Não devemos apegar-nos às fracas características da nossa
alma, ainda emitindo a mesma fragrância, mesmo depois de o Senhor lidar conosco
durante cinco ou dez anos. Não: devemos deixar o Senhor forjar um caminho em
nossas vidas.
Duas Razões para Não Ser Quebrantado
Por que é que, depois de muitos anos de trato,
algumas pessoas permanecem inalteradas? Alguns indivíduos têm uma vontade
forte; alguns têm emoções fortes; e outros têm uma mente forte. Visto que o
Senhor pode quebrantá-los, por que depois de muitos anos, alguns ficam sem
transformação? Cremos que há duas razões principais.
A primeira é que muitos que vivem nas trevas
não estão vendo a mão de Deus. Enquanto Deus está operando, enquanto Deus está
destruindo, não reconhecem que é da parte dEle. Estão destituídos de luz, e,
somente veem homens que se opõem a eles. Imaginam que se o meio-ambiente é
realmente difícil demais, que as circunstâncias são as culpadas. Assim, continuam
nas trevas e no desespero.
Que Deus nos dê uma revelação para ver o que é
da mão dEle, a fim de que nos ajoelhemos e Lhe digamos: "És Tu; visto que
és Tu, eu aceitarei." Pelo menos, devemos reconhecer de Quem é a mão
que trata conosco. Não é mão humana, nem a mão da nossa família, nem a dos
irmãos e irmãs na igreja, mas, sim, a de Deus. Precisamos aprender como nos ajoelhar
e beijar a mão, amar a mão que lida conosco, assim como fazia Madame
Guyon. Precisamos ter esta luz para ver, seja o que o Senhor fez, aceitamos e
cremos; o Senhor nada pode fazer de errado.
A segunda razão, outro grande impedimento à
obra de quebrar o homem exterior é o amor-próprio. Devemos pedir que Deus
remova o coração do amor-próprio. À medida em que Ele lida conosco em reposta à
nossa oração, devemos adorar e dizer: "Ó Senhor, se isto for da Tua mão,
que eu o aceite do meu coração." Lembremo-nos de que a única razão para
todo mal entendido, toda a irritação, todo o descontentamento, é que secretamente
amamos a nós mesmos. Assim, planejamos um modo mediante o qual podemos livrar a
nós mesmos. Muitas vezes, os problemas surgem porque procuramos uma via de
escape — uma fuga da operação da cruz.
Aquele que subiu à cruz e que se recusa a
beber o vinho com fel é aquele que conhece o Senhor. Muitos sobem à cruz com
certa relutância, ainda pensando em beber o vinho com fel para aliviar suas
dores. Todos aqueles que dizem: "Não beberei, porventura, o cálice que o
Pai me deu?" não beberá do cálice do vinho com fel. Somente podem beber um
cálice, não dois. Estas pessoas não têm qualquer amor-próprio. O amor-próprio é
uma dificuldade básica. Que o Senhor nos fale hoje de tal maneira que possamos orar:
"Ó meu Deus, vi que todas as coisas vêm de Ti. Todos os meus caminhos
estes cinco anos, dez anos, ou vinte anos, são de Ti. Operastes de tal maneira que
atingistes Teu propósito, que não é outro senão que Tua vida seja vivida
através de mim. Mas eu fui tolo. Não vi. Fiz muitas coisas para escapar, e
assim adiei o Teu tempo. Hoje, vejo Tua mão. Estou disposto a me oferecer a Ti.
Mais uma vez coloco-me nas Tuas mãos."
Espere que Verá Feridas
Ninguém é mais belo do que alguém que está
quebrantado! A teimosia e o amor-próprio cedem lugar à beleza na pessoa que foi
quebrantada por Deus. Vemos Jacó no Antigo Testamento, como mesmo no ventre da
sua mãe, lutava com seu irmão. Era sutil, enganoso, traiçoeiro. Por isso, sua
vida estava cheia de tristezas e mágoas. Ainda jovem, fugiu do seu lar. Durante
vinte anos foi logrado por Labão. A esposa do amor de seu coração, Raquel,
morreu prematuramente. O filho do seu amor, José, foi vendido. Anos mais tarde,
Benjamin foi preso no Egito. Deus tratou com ele sucessivamente, e Jacó
encontrou infortúnio após infortúnio. Deus o feriu uma vez, duas vezes; na
realidade, sua história inteira pode ser descrita como sendo uma história de
ser ferido por Deus. Finalmente, depois de muitos tratamentos deste tipo, o homem
Jacó foi transformado. Durante seus últimos poucos anos, era bem transparente.
Quão nobre era sua resposta a Faraó! Quão belo foi seu fim, quando adorou a
Deus, apoiado no seu bordão! Quão claras eram suas bênçãos pronunciadas sobre
seus descendentes! Depois de ler a última página da sua história, queremos curvar
a cabeça e adorar a Deus. Aqui temos alguém que está amadurecido, que conhece a
Deus. Várias décadas de tratos tiveram como resultado que o homem exterior de
Jacó foi quebrantado. Na sua velhice, o quadro é belo.
Cada um de nós tem boa parte da mesma natureza
de Jacó em nós. Nossa única esperança é que o Senhor marque um caminho para
fora, quebrando o homem exterior de tal maneira que o homem interior possa
surgir e ser visto. Isto é precioso, e é o caminho daqueles que servem ao
Senhor. Somente assim podemos servir; somente assim podemos levar os homens ao
Senhor. Tudo o mais está limitado quanto ao seu valor. A doutrina não tem muita
utilidade, nem a teologia. Qual é a utilidade do mero conhecimento teórico da
Bíblia se o homem exterior permanecer sem ser quebrantado? Somente a pessoa
através de quem Deus pode aparecer, é útil.
Depois de nosso homem exterior ter sido
ferido, tratado, e levado por várias provas, temos feridas em nós, e assim deixamos
o espírito emergir- Temos receio de encontrar alguns irmãos e irmãs cujo ser
total permanece intato, nunca tendo sido tratado e transformado. Que Deus tenha
misericórdia de nós, mostrando-nos claramente este caminho, e revelando-nos que
é o único caminho. Que Ele também nos mostre que nisto é visto o propósito de
todos os Seus tratos durante estes poucos anos, sejam dez ou vinte. Que ninguém
menospreze os tratos do Senhor. Que Ele nos revele verdadeiramente o que
significa o quebrantamento do homem exterior. Se o homem exterior permanecesse
integral, tudo estaria meramente em nossa mente, totalmente inútil. Tenhamos
esperança de que o Senhor venha a tratar de nós de modo completo.
CAPÍTULO 2
ANTES E DEPOIS DO QUEBRANTAMENTO
O quebrantamento do homem exterior é a
experiência de todos aqueles que servem a Deus. Deve acontecer antes que Ele
possa nos usar de modo eficaz.
Quando alguém está trabalhando para Deus, duas
possibilidades podem surgir. Primeiramente, é possível que, com o homem
exterior intato, o espírito da pessoa seja inerte e incapaz de funcionar. Se
for uma pessoa habilidosa, sua mente governa seu trabalho; se for uma pessoa
compassiva, as emoções controlam suas ações. Tal trabalho pode parecer bem
sucedido, mas não pode trazer as pessoas a Deus. Em segundo lugar, o espírito
pode aparecer revestido dos pensamentos ou das emoções da própria pessoa. O
resultado é misturado e impuro. Tal obra trará os homens para uma experiência
mista e impura. Estas duas condições enfraquecem nosso serviço a Deus.
Se desejarmos trabalhar de modo eficaz,
devemos reconhecer que, basicamente, "é o Espírito que vivifica."
Mais cedo ou mais tarde — se não no primeiro dia da nossa salvação, então,
talvez dez anos mais tarde — devemos reconhecer este fato. Muitos têm de ser
trazidos ao fim da sua sabedoria e ver o vazio da sua labuta antes de saberem
quão inúteis são seus muitos pensamentos, suas variadas emoções. Não importa quantas
pessoas você pode atrair com seus pensamentos ou emoções, o resultado vem a ser
nada. Finalmente devemos confessar: "É o Espírito que vivifica."
Somente o Espírito faz as pessoas viverem. O homem pode ser trazido para a vida
somente pelo Espírito. Muitas pessoas que servem ao Senhor chegam a enxergar
este fato somente depois de passarem por muita tristeza e muitos fracassos.
Finalmente, a palavra do Senhor passa a ter significado para elas: aquilo
que vivifica é o Espirito. Quando o espírito é liberado, os pecadores podem
nascer de novo e os santos podem ser estabelecidos. Quando a vida
é
comunicada através do canal do espírito, aqueles que a recebem nascem de novo.
Quando a vida é fornecida através do espírito para os crentes, resulta em serem
estabelecidos. Sem o Espírito, não pode haver novo nascimento, nem
estabelecimento.
Uma coisa notável é que Deus não quer fazer
distinção entre o Seu Espírito e o nosso espírito. Há muitos lugares na Bíblia
onde é impossível determinar se a palavra "espírito" indica nosso
espírito humano ou o Espírito de Deus. Os tradutores bíblicos, desde Lutero até
os estudiosos da atualidade que labutaram nas versões, não conseguiram resolver
se a palavra "espírito", conforme é usada em muitos lugares no Novo
Testamento, se refere ao espírito humano ou ao Espírito de Deus.
Da Bíblia inteira, Romanos 8 é muito provavelmente
o capítulo em que a palavra "espírito" é empregada mais
frequentemente. Quem pode discernir quantas vezes a palavra "espírito"
neste capítulo se refere ao espírito humano e quantas vezes ao Espírito de
Deus? Em várias versões existentes, a palavra "pneuma" (espírito) às
vezes é escrita com uma letra maiúscula; noutras ocasiões, com uma letra
minúscula. É evidente que estas versões não concordam entre si, e a opinião de
qualquer pessoa individualmente não é definitiva. É simplesmente impossível
distinguir. Quando, na regeneração, recebemos nosso novo espírito, recebemos o
Espírito de Deus, também. No momento em que nosso espírito humano é
ressuscitado do estado da morte, recebemos o Espírito Santo. Frequentemente
dizemos que o Espírito Santo habita em nosso espírito, mas achamos difícil
discernir qual é o Espírito Santo e qual é nosso próprio espírito. O Espírito
Santo e nosso espírito se combinaram tanto, que embora cada um seja individual,
não são facilmente distinguidos.
Deste modo, a liberação do espírito, é a
liberação do espírito humano, bem como a do Espírito Santo, que está no espírito
do homem. Visto que o Espírito Santo e o nosso espírito, são unidos em um só (1
Co 6:17), podem ser distinguidos somente no nome, e não no fato. E visto que a
liberação de um importa na liberação dos dois, outros podem tocar o Espírito
Santo quando tocam o nosso espírito. Graças a Deus porque à medida em que você
deixa as pessoas entrarem em contato com o seu espírito, deixa-as terem contato
com Deus. O seu espírito trouxe o Espírito Santo aos homens.
Quando o Espírito Santo está operando, precisa
ser transportado pelo espírito humano. A eletricidade numa lâmpada elétrica,
não viaja como o raio. Deve ser conduzida através de fios elétricos. Se você
quiser usar a eletricidade, precisa de um fio elétrico para trazê-la até você.
De modo semelhante, o Espírito de Deus faz uso do espírito humano para
transmiti-Lo, e através dele, Ele é trazido ao homem. Toda pessoa que recebeu a
graça, tem o Espírito Santo habitando no seu espírito. Se pode ser usado pelo
Senhor, ou não, depende, não do seu espírito, mas, sim, do seu homem exterior.
A dificuldade de muitas pessoas é que seu homem exterior não foi quebrantado.
Não há evidência daquele caráter marcado pelo sangue — daquelas chagas ou
cicatrizes. Assim, o Espírito de Deus é aprisionado dentro do espírito do homem
e não pode irromper e sair. Às vezes o nosso homem exterior está ativo, mas o
homem interior permanece inativo. O homem exterior se manifesta, enquanto que o
homem interior fica para trás.
Alguns Problemas Práticos
Vamos passar tudo isto em revista através de
alguns problemas práticos! Tomemos a pregação como um exemplo. Quão
frequentemente podemos estar pregando com sinceridade — dando uma mensagem bem
preparada e sólida — mas interiormente nos sentimos frios como gelo. Ansiamos
por animar os outros, mas nós mesmos não ficamos comovidos. Há falta de
harmonia entre o homem exterior e o interior. O homem exterior está suado com o
calor, mas o homem interior está tremendo de frio. Podemos contar aos outros
quão grande é o amor do Senhor, mas pessoalmente não somos tocados por ele.
Podemos contar aos outros quão trágico é o sofrimento da cruz, mas, ao voltar para
nosso quarto, podemos rir. O que podemos fazer a respeito disto? Nossa mente
pode labutar, nossas emoções podem ser energizadas, mas, o tempo todo, temos a
sensação de que o homem interior está meramente observando os acontecimentos. O
homem exterior e o interior não estão unidos.
Considere outra situação. O homem interior
está sendo devorado pelo zelo. A pessoa quer gritar, mas nada consegue expressar.
Depois de falar por muito tempo, parece que ainda está andando em círculos. Quanto
mais solicitude sente por dentro, tanto mais frio se torna do lado de fora.
Anseia por falar, mas não consegue achar expressão. Quando se encontra com um
pecador, seu homem interior tem vontade de chorar, mas ele não consegue
derramar uma lágrima. Há um senso de urgência dentro dele, mas quando sobe ao
púlpito e procura gritar, vê-se perdido num labirinto de palavras. Uma situação
desta é muito penosa. A causa radical é a mesma: a casca externa ainda
se apega a ele. O exterior não obedece aos ditames do interior: chorando por
dentro, mas por fora, sem se comover; sofrendo por dentro, mas por fora,
intocado; cheio de pensamentos por dentro, mas por fora, a mente parece estar
em branco. O espírito ainda tem de descobrir um meio de atravessar a casca.
Deste modo, o quebrantamento do homem exterior
é a primeira lição para toda pessoa que deseja aprender a servir a Deus.
Aquele que é verdadeiramente usado por Deus, é aquele cujo pensamento e
emoção externas, não agem independentemente. Se não aprendermos esta lição, a
nossa eficácia, será grandemente prejudicada. Que Deus nos traga ao lugar em
que o homem exterior, é completamente quebrantado.
Quando prevalecer esta condição, haverá fim
desta atividade exterior com a inércia interior; acabará o chorar interior com
a compostura exterior; acabará a abundância de pensamentos interiores para os
quais não há expressão. Você não ficará pobre em pensamentos. Você não
precisará empregar vinte frases para expressar o que pode ser dito em duas.
Seus pensamentos ajudarão o seu espírito ao invés de atrapalhá-lo.
De modo semelhante, nossas emoções também são
uma casca muito dura. Muitos que desejam estar felizes não podem expressar
felicidade, ou talvez queiram chorar, sem, porém, consegui-lo. Se o Senhor
tiver ferido nosso homem exterior através da disciplina ou da iluminação do
Espírito Santo, poderemos expressar alegria ou tristeza conforme os ditames do interior.
A liberação do espírito nos possibilita
permanecer cada vez mais em Deus. Tocamos o espírito da revelação na Bíblia. Sem
esforço, nosso espírito pode receber a revelação divina. Quando estamos
testemunhando ou pregando, transmitimos a palavra de Deus através do nosso
espírito. Além disto, podemos muito espontaneamente entrar em contato com o espírito
dos outros, mediante o nosso espírito. Sempre que alguém laia em nossa
presença, podemos "tirar a medida dele" — avaliar que tipo de pessoa
é, qual atitude está adotando, que tipo de cristão é, e qual é a sua necessidade. Nosso
espírito pode tocar o espírito dele. E o que é maravilhoso, é que outros facilmente
entram em contato com o nosso espírito. No caso de alguns, apenas temos um
encontro com seus pensamentos, com suas emoções, ou com sua vontade. Depois de
conversar com eles durante horas a fio, ainda não encontramos a pessoa real,
embora ambos sejamos cristãos. A casca exterior é grossa demais para outras
pessoas tocarem o homem interior. Com o quebrantamento do homem exterior, o
espírito começa a fluir e sempre está aberto diante de outras pessoas.
Aventurando-se e Recolhendo-se
Uma vez que o homem exterior tenha sido
quebrantado, o espírito do homem muito naturalmente, permanece na presença de
Deus sem cessar. Dois anos depois de certo irmão ter confiado no Senhor, leu The
Practice of the Presence of God ("A Prática da Presença de Deus")
de Irmão Lawrence. Depois de lê-lo, sentiu-se aflito com seu fracasso quanto a
permanecer incessantemente na presença de Deus como o Irmão Lawrence. Naqueles
tempos, tinha encontros com horário marcado para orar com alguém. Por que? Bem,
a Bíblia diz: "Orai sem cessar", e eles mudaram a expressão para
"Orai toda hora." Cada vez que ouviam o relógio bater a hora, oravam.
Esforçavam-se ao máximo para recolher-se em Deus, porque achavam que não podiam
manter-se na presença contínua de Deus. Era como se tivessem ido embora
quietamente enquanto trabalhavam, e, assim, precisassem rapidamente recolher-se
em Deus. Ou se pro um rápido retorno para Deus. Doutra forma, achar-se-iam ausentes
de Deus durante o dia inteiro. Oravam frequentemente, passando dias inteiros
orando no Dia do Senhor e metade do dia aos sábados. Assim continuavam, durante
dois ou três anos. Mesmo assim, o problema ainda permanecia: recolhendo-se,
desfrutavam da presença de Deus, mas ao saírem para fora, perdiam-na.
Naturalmente, este problema não é só deles; tal é a experiência de muitos cristãos.
Indica que estamos procurando manter a presença de Deus por meio da nossa memória.
O senso da Sua presença flutua de acordo com a nossa memória. Quando nós nos
lembramos, há a consciência da Sua presença; senão, não há nenhuma. Isto é pura
tolice, pois a presença de Deus está no espírito e não na memória.
Para solucionar este problema, devemos
primeiramente resolver a questão do quebrantamento do homem exterior. Visto que
nem nossa emoção nem nosso pensamento tem a mesma natureza que Deus, não podem
ser juntados com Ele. O Evangelho segundo João, capítulo 4, mostra-nos a
natureza de Deus. Deus é Espírito. Somente nosso espírito é da mesma natureza
de Deus; logo, pode ser eternamente unido com Ele. Se procurarmos chegar a
obter a presença de Deus por meio de dirigir nosso pensamento, então, quando
não estamos nos concentrando, Sua presença parece ser perdida. Além disto, se
procurarmos usar nossa emoção para conclamar a presença de Deus, então, tão
logo que nossa emoção se relaxa, Sua presença parece ter ido embora. Às vezes
estamos felizes, e tomamos este fato por termos a presença de Deus. Deste modo,
quando a felicidade cessa, a presença foge! Ou podemos supor que Sua presença
está conosco enquanto lastimamos e choramos. Infelizmente, não podemos derramar
lágrimas durante nossa vida inteira. Logo, nossas lágrimas se secarão, e
depois, a presença de Deus desaparece. Tanto nossos pensamentos quanto nossas
emoções são energias humanas. Todas as atividades devem chegar ao fim. Se
procurarmos manter a presença de Deus com a atividade, então, quando a
atividade cessa, Sua presença termina. A presença de Deus requer uma natureza
igual à dEle. Somente o homem interior é da mesma natureza de Deus. Através dele,
exclusivamente, a presença de Deus pode ser manifestada. Quando o homem
exterior está em atividades, estas podem perturbar o homem interior, mas, o
homem exterior não é um ajudador, e, sim, um perturbador. Quando o homem
exterior é quebrantado, o homem interior desfruta de paz diante de Deus.
Deus nos deu o espírito para nos capacitar a
corresponder a Ele. O homem exterior, no entanto, sempre está correspondendo às
coisas de fora, e daí nos priva da presença de Deus. Não podemos destruir todas
as coisas do lado de fora, mas podemos quebrantar o homem exterior. Não podemos
acabar com todas as coisas que existem fora; estes milhões e bilhões de coisas
no mundo, estão totalmente além do nosso controle. Cada vez que alguma coisa
acontece, nosso homem exterior corresponderá; todavia não conseguimos desfrutar
em paz da presença de Deus. Concluímos, portanto, que experimentar a presença
de Deus depende do quebrantamento do nosso homem exterior. Se, pela
misericórdia de Deus, nosso homem exterior foi quebrantado, podemos ser
caracterizados da seguinte maneira: Ontem, estávamos cheios de curiosidade, mas
hoje é impossível ser curioso. Anteriormente, nossas emoções podiam facilmente
ser despertadas, ou movendo nosso amor, a mais delicada das emoções, ou
provocando nossa ira, a mais grosseira delas. Mas agora, sejam quantas forem as
coisas que vierem às multidões por cima de nós, nosso homem interior fica
imperturbável, a presença de Deus fica imutável, e nossa paz interior permanece
sem a mais leve agitação.
Torna-se evidente que o quebrantamento do
homem exterior é a base para desfrutar da presença de Deus. O Irmão Lawrence
estava ocupado em serviços de cozinha. As pessoas pediam, impacientes, as coisas
que queriam. Embora houvesse o tinido de pratos e utensílios, seu homem
interior não se perturbava. Podia sentir a presença de Deus no lufa-lufa de uma
cozinha tanto quanto na oração em momentos quietos. Por que? Estava impérvio
aos barulhos externos. Aprendera a comungar no seu espírito e desconsiderar a
vida da sua alma.
Alguns acham que, para ter a presença de Deus,
seu ambiente deve estar livre de perturbações, tais como o tinido dos pratos.
Quanto mais longe estão da humanidade, tanto melhor poderão sentir a presença
de Deus. Que erro! O problema acha-se, não nos pratos, nem nas outras pessoas,
mas, sim, neles mesmos. Deus não vai livrar-nos dos pratos; livrar-nos-á das
nossas respostas! Não importa quão barulhento fica lá fora, o lado de dentro
não precisa corresponder. Visto que o Senhor quebrantou nosso homem externo,
simplesmente reagimos como se não tivéssemos ouvido. Louvado seja Deus, podemos
possuir uma audição muito afinada, mas, devido à obra da graça em nossas vidas,
não estamos influenciados de modo algum pelas coisas que fazem pressões sobre
nosso homem exterior. Podemos ficar diante de Deus em tais ocasiões tanto
quanto, quando estivermos orando sozinhos.
Uma vez que o homem exterior é quebrantado, a
pessoa já não precisa retrair-se em direção de Deus, pois sempre está na
presença de Deus. Não é assim no caso daquele cujo homem exterior ainda está
intato. Depois de fazer algum dever, precisa voltar, pois supõe que se movimentou
para longe de Deus. Até mesmo ao fazer a obra do Senhor, escapa dAquele a quem
serve. Assim, parece que a melhor coisa para ele é deixar de fazer movimento
algum. Apesar disto, os que conhecem a Deus não precisam voltar, porque nunca
se ausentaram. Desfrutam da presença de Deus quando consagram um dia à oração,
e desfrutam da mesma presença em grau muito semelhante quando estão ativamente
ocupados nas tarefas da vida diária. Talvez seja nossa experiência comum que,
ao nos aproximarmos de Deus, sentimos Sua presença; ao passo que, se estamos
ocupados em alguma atividade, a despeito da nossa vigilância, sentimos que, de
alguma maneira, nos afastamos, indo à deriva. Suponhamos, por exemplo, que
estamos pregando o evangelho ou procurando edificar as pessoas. Depois de certo
tempo, temos vontade de nos ajoelhar para orar. Mas temos alguma ideia de que
primeiramente devemos nos recolher em Deus. D’alguma maneira, a nossa conversa
com as pessoas nos levou um pouco para longe de Deus, de modo que, na oração,
primeiramente devamos nos aproximar mais dEle. Perdemos a presença de Deus, e,
portanto, agora ela deve nos ser restaurada. Ou talvez estejamos ocupados com
alguma tarefa caseira tal qual esfregar o assoalho. Ao completar nossa tarefa,
resolvemos orar. Mais uma vez, sentimos que fizemos uma longa viagem e que
devemos voltar. Qual é a resposta? O quebrantamento do homem exterior torna
desnecessárias tais voltas. Sentimos a presença de Deus na nossa conversação
tanto quanto ao ajoelhar-nos em oração. Cumprir nossas tarefas diárias não nos
a Casta de Deus; logo, não precisamos voltar.
Agora, consideremos um caso extremo para
ilustrar este fato. A ira é o mais violento dos sentimentos humanos. Mas a Bíblia
não nos proíbe de ficarmos zangados, porque nem toda ira, se relaciona com o
pecado. "Irai-vos, mas não pequeis," diz a Bíblia. Mesmo assim, a ira
de qualquer tipo é tão forte que quase chega ao pecado . Não achamos
"Amai, mas não pequeis", nem "Sede meigos, mas não
pequeis", na Palavra de Deus, porque o amor e a meiguice estão removidos a
uma grande distância do pecado. A ira, porém, fica perto do pecado.
Talvez, certo irmão cometeu uma falha séria.
Precisa ser severamente repreendido. Isso não é coisa fácil. Preferíamos exercer
nossos sentimentos de misericórdia do que colocar nossos sentimentos de ira em
jogo, pois esta pode cair em coisa diferente com o mínimo de descuido. Dessa
forma, não é fácil ser corretamente zangado de acordo com a vontade de Meus
Mesmo assim, aquele que conhece o quebrantamento homem exterior pode tratar
severamente com outro irmão sem seu próprio espírito ser perturbado, nem a
presença de Deus interrompida. Permanece em Deus tanto ao lidar com os outros,
quanto na oração. Assim, depois de ter chamado a atenção do seu irmão, pode
orar sem qualquer esforço para recolher-se em Deus. Reconhecemos que isto é um
pouco difícil; quando, porém, o homem exterior é quebrantado, torna-se possível,
sem problemas.
A Divisão entre o Homem Exterior e o Interior
Quando o homem exterior é quebrado, as coisas
de fora serão conservadas fora, e o homem interior viverá diante de Deus
continuamente. O problema de muitas pessoas é que seu homem exterior e seu
homem interior estão juntos, de modo que o que influencia o externo influencia
o interno. Através da operação misericordiosa de Deus, o homem exterior e o homem
interior devem ser separados. Então, aquilo que afeta o homem exterior não poderá
alcançar o interior. Embora o homem exterior esteja ocupado numa conservação, o
homem interior está tendo comunhão com Deus. O homem exterior talvez ache
pesaroso ter que ouvir o tinido dos pratos; o homem interior, no entanto, permanece
em Deus. A pessoa pode levar a efeito suas atividades, entrar em contato com o
mundo através do homem exterior, mas, mesmo assim, o homem interior permanece
sem ser afetado porque ainda vive diante de Deus.
Consideremos um ou dois exemplos. Certo irmão
está trabalhando na estrada. Se seu homem exterior e interior já foram
divididos, este último não será perturbado pelas coisas externas. Pode labutar
no seu homem exterior, enquanto, ao mesmo tempo, está internamente adorando a
Deus. Ou considere um pai: seu homem exterior talvez esteja rindo e brincando com
seu filhinho. De repente, surge certa necessidade espiritual. Pode imediatamente
enfrentar a situação com seu homem interior, pois nunca esteve ausente da
presença de Deus. Assim, é importante que reconheçamos que a divisão entre o
homem exterior e o homem interior tem um efeito muito decisivo sobre o trabalho
e a vida da pessoa. Somente assim é que a pessoa pode labutar sem distração.
Podemos descrever os crentes como sendo
pessoas ou "únicas" ou "duplas." No caso d'alguns, seu
homem interior e exterior são um só; com outros, os dois foram separados. Enquanto
alguém é uma pessoa "única," deve conclamar a totalidade do seu ser
para seu trabalho ou para sua oração. Ao trabalhar, deixa Deus para trás. Ao
orar mais tarde, deve separar-se do seu serviço. Porque seu homem exterior não
foi quebrantado, está forçado a aventurar-se e a recolher-se. A pessoa “dupla”,
do outro lado, tem a capacidade de trabalhar com seu exterior enquanto seu
homem interior permanece constantemente diante de Deus. Sempre que a necessidade
seu homem interior pode fluir com força e manifestar-se diante de outras
pessoas. Desfruta da presença ininterrupta Deus. Perguntemos a nós mesmos: Sou
uma pessoa "única" ou "dupla"? Faz toda a diferença,
realmente, se o homem exterior é dividido do interior.
Se, pela misericórdia de Deus, você
experimentou esta divisão, então, enquanto você está trabalhando ou está ativo externamente,
você sabe que há um homem dentro de você que mantém a calma. Embora o homem
exterior esteja ocupado em coisas externas, estas não penetrarão no homem
interior.
Aqui está o segredo maravilhoso! Conhecer a
presença de Deus é através da divisão destes dois. O Irmão Lawrence parecia
ativamente ocupado com os trabalhos da cozinha, mas dentro dele havia outro
homem que ficava diante de Deus e que desfrutava de comunhão com Ele, sem
perturbação alguma. Semelhante divisão interior conservará nossas reações
livres da contaminação da carne e do sangue.
Concluindo, lembremo-nos de que a capacidade
de usar nosso espírito depende da obra dupla de Deus: o quebrantamento do homem
exterior e a divisão entre o espírito e a alma, ou seja: a separação do nosso
homem interior do exterior. Somente depois de Deus ter realizado estes dois
processos em nossa vida é que poderemos exercitar nosso espírito. O homem
exterior é quebrantado mediante a disciplina do Espirito Santo; é
dividido do homem interior pela revelação do Espírito Santo (Hb 4:12).
CAPÍTULO 3
RECONHECENDO “A
COISA EM MÃOS”
Deixe-me primeiramente explicar o nosso
tópico. Suponhamos que um pai peça que seu filho faça certa coisa. O filho responde:
"Neste momento tenho alguma coisa em mãos; tão logo que eu acabar, farei o
que você ordena." "A coisa em mãos" é a coisa que o filho está
fazendo antes de receber as ordens do seu pai. Imediatamente, reconhecemos que
temos aquelas "coisas em nossas mãos" que nos estorvam em nosso andar
com Deus. Pode ser qualquer coisa — algo que é bom, importante ou que parece
ser necessário — que nos preocupa e desvia nossa atenção. Enquanto o homem
exterior permanecer intato, o mais provável é que acharemos nossas mãos cheias de
coisas. Nosso homem exterior tem seus próprios interesses, apetites,
preocupações e labutas religiosas. Deste modo, quando o Espírito de Deus se movimenta
em nosso espírito, nosso homem externo não pode responder à chamada de Deus.
Assim é "a coisa em mãos" que bloqueia o caminho para a utilidade
espiritual.
A Força Limitada do Homem Exterior
Nossa força humana é limitada. Se um irmão
puder carregar somente cinquenta quilos, e você quiser que ele pegue mais dez,
ele simplesmente não pode fazê-lo. É uma pessoa limitada, incapaz de realizar
um trabalho ilimitado. Os cinquenta quilos que já está carregando é "a
coisa em mãos." Assim como a força física do nosso homem periférico é
limitada, assim também acontece com a força do nosso homem exterior.
Muitos, sem perceberem este princípio, gastam
descuidadamente a força do seu homem exterior. Se, por exemplo, alguém desse
profusamente todo o seu amor aos pais, não lhe Sobraria forças para amar seus
irmãos, sem mencionar outras pessoas. Ao esgotar assim as forças (da sua alma),
nada sobra dirigir aos outros.
Assim acontece com nossa força mental. Se a
atenção da pessoa for focalizada em certa questão, e esgotar todo o seu tempo
só pensando nela, não lhe sobrarão forças para pensar em outras coisas. Na Sua
Palavra, Deus explicou nosso problema: “Porque
a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da
morte" (Rm 8:2). Mas por que estalei do Espírito da vida é ineficaz em
certas pessoas? Mais uma vez, lemos: "A
fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que não andamos segundo a
carne, mas segundo o Espírito" (Rm 8:4). Em outras palavras, a lei do
Espírito da vida opera eficazmente somente para os que são espirituais, ou seja
já: os que cuidam das coisas do Espírito. Quem são estes? São os que não andam
segundo a carne. Isto é, não são dominados pelos deleites da carne. Por
exemplo, certa mãe vai sair, e deixa seu nené aos cuidados de uma amiga. Cuidar
do nenê significa prestar atenção a ele. Enquanto você está encarregado com o
cuidado de um nené, você não ousa deixar-se distrair fazendo outras coisas. De
modo semelhante, somente aqueles que não fixam suas intenções nas coisas
carnais podem prestar atenção às coisas espirituais. Aqueles que fixam suas
intenções nas coisas espirituais ficam sujeitos à força do Espírito Santo.
Nossas forças mentais estão sujeitos à força do Espírito Santo. Nossas forças
mentais estão limitadas. Se as esgotarmos nas coisas da carne, achar-nos-emos
mentalmente inadequados para as coisas do Espírito.
Reconhecemos, portanto, que assim como nossas
forças físicas estão limitadas, assim acontece com as forças da alma, as do
nosso homem exterior. Enquanto tivermos "coisas em mãos" não podemos
fazer a obra de Deus. De acordo com o número de coisas em mãos, as forças para
servir a Deus diminuem ou aumentam. Logo, a coisa em mãos fica realmente um impedimento,
e este, não de tamanho pequeno.
Além disto, a pessoa pode ter muitas coisas em
mãos, emocionalmente: tais como predileções ou antipatias, inclinações ou
expectativas variadas e conflitantes. Todas estas puxam com atração magnética.
Com tantas coisas em mãos, quando Deus pede a uma pessoa que Lhe dê sua
afeição, a pessoa não pode corresponder, porque já gastou toda a sua emoção. Se
já esgotou um suprimento de dois dias de recursos emocionais, terá que passar
igual período de tempo antes de poder voltar a sentir e falar de modo adequado.
Desta maneira, quando a emoção for desperdiçada em coisas secundárias, não pode
ser usada de modo irrestrito para Deus.
Há, todavia, pessoas que manifestam uma
vontade de ferro, uma personalidade forte cujos poderes de volição parecem ilimitados.
Nas coisas de Deus, porém, são incapazes de tomarem uma decisão; com frequência
as pessoas mais fortes vacilam nas suas decisões diante de Deus. Porque é isto?
Antes de respondermos, consideremos alguém que está cheio de ideias. Embora
pareça que nunca está perplexo para concepção de novos planos, quando se trata
de discernir a vontade de Deus nas coisas espirituais, está totalmente
destituído de luz. Por que é assim?
Enquanto o homem exterior está tão carregado e
tão exausto, com "as coisas em mãos", poucas forças sobram para qualquer
exercício espiritual. É necessário, pois, ver a força limitada do homem
exterior. Embora quebrantado, deve existir uma sabedoria para usar estas
forças. Quão necessário, pois, é termos "mãos vazias"!
O que o Espírito Faz de um Homem Exterior Quebrantado?
Ao lidar com o homem, o Espírito de Deus nunca
passa por cima do espírito do homem. Nem nosso espírito pode passar por cima do
homem exterior. Este é um princípio muito importante para ser compreendido.
Assim como o Espírito Santo não passa por cima do espírito do homem, assim
também nosso espírito não desconsidera o homem exterior, para então passar a
funcionar diretamente. A fim de tocar em outras vidas, nosso espírito deve
passar através do homem exterior. Logo, quando as forças deste último forem
consumidas mintas coisas em mãos, Deus não pode realizar Sua obra através de
nós. Não há saída para o espírito humano nem para o Espírito Santo. O homem
interior não pode fluir porque é resistindo e bloqueado pelo homem exterior. É
por isso que sugerimos repetidas vezes que este homem exterior deve ser
quebrantado.
A coisa em mãos está ali antes de Deus começar
a operar. Não pertence a Deus, nem precisa da Sua ordem, do Seu poder, ou da
Sua decisão para ser realizada. Não é algo que está sob a mão de Deus, mas,
sim, é uma ação independente.
Antes de seu homem exterior ser quebrantado,
você está ocupado com suas próprias coisas, anda no seu próprio caminho, e ama
sua própria gente. Se Deus quiser usar seu amor para amar os irmãos, Ele deve
primeiramente quebrantar seu homem exterior. Este amor que você tem, passa
assim, a ficar maior. O homem interior deve amar, mas tem de amar através do
homem exterior. Se o homem exterior estiver ocupado com a coisa em mãos, o
interior será privado do seu canal apropriado para amar.
Mais uma vez: quando o homem interior precisa
usar sua vontade, descobre que ela está agindo independentemente, já ocupada
pela coisa em mãos. Para quebrantar nossa vontade, Deus deve dar-nos um golpe
pesado até que nos prostremos no pó e digamos: "Senhor, não ouso pensar,
não ouso pedir, não ouso resolver por conta própria. Em toda e qualquer coisa
preciso de Ti." Ao sermos feridos, devemos aprender que nossa vontade não
deve agir independentemente.
Sem a cooperação do homem exterior, o interior
sofre grandes desvantagens. Imaginemos que um irmão vai pregar a Palavra. Tem
uma preocupação no seu espírito. Se, porém, deixa de achar pensamentos à
altura, não pode entregar a mensagem, e ela logo desaparecerá. Embora a
mensagem permeie a totalidade do seu espírito, tudo é fútil se sua mente não
conseguir comunicá-la.
Não podemos trazer os homens à salvação,
meramente com a mensagem em nosso espírito; esta deve ser expressa através da
nossa mente. A mensagem do homem interior deve ser expressa pelo homem
exterior. Sem pronunciamento, é impossível tornar conhecida aos outros a
Palavra de Deus. As palavras do homem não são as de Deus, mas as últimas devem ser
comunicadas pelas primeiras. Quando o homem tem as palavras de Deus, Deus pode
falar; quando o homem não as tem, Deus não pode falar. O problema hoje é que,
embora nosso homem interior esteja disponível a Deus — capaz de receber a mensagem
de Deus — nosso homem exterior é impulsionado por tais pensamentos múltiplos e
confusos desde a manhã até à noite que nosso espírito não pode achar saída.
Deste modo, Deus deve esmagar nosso homem
exterior. Quebra nossa vontade tirando as coisas da "mão", de modo que
a nossa vontade não possa agir independentemente. Não a fim de que não tenhamos
mente, mas, sim, a fim de que não pensemos segundo a carne, de acordo com
nossas imaginações que divagam. Não para que sejamos destituídos de emoções, mas,
sim, a fim de que todas as nossas emoções estejam sob o controle e a restrição
do homem interior. Isto dá ao homem interior uma vontade, uma mente, e emoções
que podem ser usadas. Deus quer que nosso espírito use nosso homem exterior para
amar, para pensar, e para decidir. Embora não seja Sua intenção exterminar
nosso homem exterior, devemos receber esta experiência básica de sermos
quebrantados, se aspiramos o serviço eficaz a Deus.
Até que isto aconteça, o homem interior e o
exterior estão em desarmonia, sendo que cada um age independentemente do outro.
Quando somos quebrantados, o homem exterior está submetido ao controle do
interior, e dessa maneira, unifica nossa personalidade, de modo que o homem
exterior espatifado seja um canal para o homem interior.
Ora, deve ser reconhecido que uma
personalidade unificada, pode frequentemente caracterizar uma pessoa não-salva,
mas, neste caso, o homem interior está sob o controle do homem exterior. Embora
o espírito humano exista, é tão surrado pelo homem exterior que o máximo que
pode fazer é levantar uns protestos conscientes. O homem interior é totalmente dominado
pelo homem exterior.
Depois de alguém ser salvo, no entanto, é a
intenção de Deus que experimente a inversão desta ordem. Assim como seu homem
exterior controlava o interior antes de ser salvo, assim agora seu homem
interior deve ter domínio absoluto sobre o exterior.
Podemos usar o ciclismo como ilustração. No
terreno plano, pedalamos a bicicleta e as rodas giram pela estrada a fora.
Semelhantemente, quando nosso homem interior é forte, e o homem em exterior é
quebrantado, "pedalamos" e as "rodas" giram pela estrada
afora. Podemos resolver se vamos continuar, ou parar , e com que velocidade
viajaremos. No caso de uma bicicleta num declive, no entanto, as rodas
giram sem pedalarmos, pois, parece que a estrada simplesmente nos leva adiante.
De modo semelhante, se nosso homem exterior for duro e sem quebrantamentos,
será como uma bicicleta descendo uma ladeira, a roda livre, fora de controle.
Se o Senhor nos for gracioso, nivelando a ladeira da nossa experiência por meio
de quebrantar o homem exterior — de modo que este não fique e dar conselhos e
fazer decisões de modo independente - seremos como aqueles que podem usar
apropriadamente seu espírito.
A Pessoa Quebrantada, Não Apenas Ensinada
Ninguém está equipado para trabalhar
simplesmente porque aprendeu alguns ensinos. A pergunta básica continua sendo:
Que tipo de homem é ele? Aquele cujas operações interiores estão erradas, mas
cujo ensino está correto, pode suprir as necessidades da igreja? A lição básica
que devemos aprender e sermos transformados em vasos apropriados para o uso do Mestre.
Isto pode ser feito somente mediante o quebrantamento do homem exterior.
Deus está operando incessantemente em nossa
vida. Muitos anos de sofrimentos, provações, e impedimentos — trata-se da mão
de Deus, que dia após dia procura levar a efeito Sua obra de nos quebrantar.
Você não vê o que Deus está fazendo neste ciclo interminável de dificuldades?
Senão, você deve pedir a Ele: "Ó Deus, abre os meus olhos a fim de que eu
perceba a Tua mão." Quão frequentemente os olhos de um asno são mais
agudos do que os de alguns que se denominam profetas.
Embora o asno já tivesse visto o Anjo do
Senhor, o dono dele não o vira. O asno reconheceu a mão de Deus que proibia, mas
aquele que se chamava de profeta não a reconheceu. Devemos ter a consciência de
que o quebrantamento é o modo de Deus agir em nossa vida. Quão triste é que
alguns ainda imaginam que se apenas pudessem absorver mais ensino, acumular mais
matéria para pregação, e assimilar mais exposição bíblica, seriam mais proveitosos
para Deus. Esta ideia está totalmente errada. A mão de Deus está sobre você
para quebrantá-lo — não segundo a sua vontade, mas, sim, a dEle; não segundo os
seus pensamentos, mas, sim, os dEle; não segundo sua decisão, mas a dEle. Nossa
dificuldade é que, à medida em que Deus nos resiste, culpamos a outras pessoas.
Reagimos como aquele profeta que, cego à mão de Deus, culpava o asno por recusar-se
a fazer um movimento sequer.
Tudo quanto vem a nós é ordenado por Deus.
Para um cristão, nada é acidental. Devemos pedir a Deus que abra nossos olhos
para vermos que Ele nos está ferindo em todas as coisas e em todas as áreas da
nossa vida. Certo dia, quando, mediante a Sua graça sobre nós, formos capazes
de aceitar a providência de Deus em nosso meio-ambiente, nosso espírito será liberado
e pronto para funcionar.
Uma Lei Que Não É Afetada pela Oração
Há uma lei imutável de Deus operando em nós:
Seu propósito específico está quebrantando e liberando nosso espírito para seu
livre exercício. Devemos compreender que nada nas nossas orações, rogos ou
promessas afetará ou mudará este propósito; é de acordo com sua lei de realizar
um quebrantamento e liberação em nós; todas as nossas orações não alterarão
esta lei. Se você deliberadamente enfiar a mão numa fogueira, a oração o
livrará da queimadura e da dor (exceto no caso de um milagre)? Se você não
deseja ser queimado pelo fogo, mas deliberadamente coloca a mão no meio dele apesar
disto, então não pense que a oração o protegerá das consequências; não o fará.
Da mesma maneira, percebamos que o modo de Deus tratar conosco é deliberado, de
acordo com Sua lei. A fim de se manifestar, o homem interior deve passar pelo
exterior. Até que nosso homem exterior seja espatifado, simplesmente não pode
fluir. Não procure transtornar esta lei e seus efeitos ao orar pedindo bênçãos;
tais orações são em vão. O orar nunca poderá transformar a lei de Deus.
Devemos resolver esta questão de uma vez para
sempre. O caminho da obra espiritual acha-se quando Deus se manifesta através
de nós. Este é o único caminho que Deus ordenou. Para quem está intato, o evangelho
está bloqueado e não pode fluir através da vida. Curvemo-nos totalmente diante
de Deus. Obedecer a lei de Deus é muito melhor do que dizer muitas orações é
muito melhor parar de orar e confessar: "Deus, prostro-me diante de
Ti." Sim, quão frequentemente nossas orações por bênçãos realmente erguem barreiras.
Ansiamos pela bênção, mas parece que achamos a misericórdia de Deus nas experiências
que esmagam. Se apenas procurássemos a iluminação, aprendêssemos a submeter-nos
à Sua mão, e obedecêssemos à Sua lei, descobriríamos que o resultado seria a
própria bênção pela qual ansiamos.
CAPÍTULO 4
COMO CONHECER O
HOMEM
Conhecer o homem é vital para um obreiro.
Quando alguém vem para nós, devemos discernir sua condição espiritual, sua
natureza, e a extensão do seu progresso espiritual. Devemos resolver quanto
daquilo que falou realmente está no seu coração e quanto ele deixou sem dizer.
Além disto, devemos perceber suas características — se é empedernido ou
humilde, se sua humildade é verdadeira ou falsa. Nossa eficácia no serviço está
estreitamente relacionada com nosso discernimento da condição espiritual do homem.
Se o Espírito de Deus nos capacita através do nosso espírito a conhecer a
condição da pessoa diante de nós, podemos, então, oferecer a palavra certa.
Nos Evangelhos, descobrimos que sempre que os
homens vinham para nosso Senhor, Ele sempre tinha a palavra certa. Esta é uma
coisa maravilhosa. O Senhor não falou à mulher samaritana acerca do novo nascimento,
nem contou a Nicodemos acerca das águas vivas. A verdade do novo nascimento era
para Nicodemos, ao passo que a verdade das águas vivas era para a mulher samaritana.
Quão apropriadas eram as palavras. Aqueles que não O tinham seguido foram
convidados a vir; mas os que desejavam segui-Lo foram convidados a carregar a cruz.
Para um que se ofereceu, Ele falou sobre contar o custo; e para um que se
demorava, disse: "Deixa os mortos que enterrem seus próprios mortos."
As palavras de nosso Senhor eram apropriadíssimas, porque conhecia todos os
homens. Nosso Senhor sabia se vinham como interessados sinceros ou
meramente para fazer espionagem contra Ele; e aquilo que Ele lhes dizia sempre
era bem aplicável. Que Deus seja misericordioso conosco afim de que nós,
também, possamos aprender dEle como conhecer os homens ao ponto de sermos
eficazes ao lidarmos com eles.
Sem tal conhecimento que lhe é dado, o irmão
somente pode lidar com as almas segundo seu próprio entendimento. Se tem um
sentimento especial num certo dia, falará a todas as pessoas de acordo com que
aquele sentimento, seja quem for apareça. Se tem um assunto predileto, falará
sobre ele a todos que vierem a ele. Como
um trabalho destes pode ser eficaz? Nenhum médico pode usar a mesma receita
para todo, os seus pacientes. Infelizmente, alguns daqueles que servem a Deus
têm uma só receita. Embora não possam primeiramente diagnosticar as enfermidades
das pessoas, estão procurando curá-las. A despeito da sua ignorância das
complexidades do homem e da sua falta de discernimento da condição espiritual
do homem, mesmo assim, parecem estar bem prontos para tratar toda enfermidade.
Quão estulto é ter uma
só uma receita espiritual, e mesmo assim, procurar tratar de todas as doenças
espirituais!
Você imaginou que são os morosos que não podem
discernir, e que somente os habilidosos o podem? Não: nesta obra, os morosos e
os habilidosos são igualmente excluídos. Você não pode usar sua mente ou seu sentimento (independentes)
para discernir as pessoas. Seja quão aguçada for sua mente, você não pode penetrar
na profundidade do homem e revelar sua condição.
Depois de encontrar-se com uma alma, cada
obreiro deve primeiramente discernir qual é a verdadeira necessidade daquele indivíduo
diante de Deus. Frequentemente, você não pode confiar naquilo que ele diz.
Embora ele possa insistir corretamente que tem "dor de cabeça," esta
pode ser mero sintoma de uma condição mais profunda cujas raízes devem ser
achadas noutra parte. Simplesmente porque sente algum calor não significa que
tem uma "febre alta." É provável que ele lhe diga muitas coisas que
não têm qualquer aplicação ao caso dele. Uma "pessoa doente"
compreende bem raramente qual é seu problema verdadeiro; é-lhe necessário,
portanto, que você faça seu diagnóstico e lhe ofereça os meios da cura. Talvez
você queira que ela lhe conte a sua necessidade, mas ela tende a enganar-se.
Somente um diagnosticador treinado, que tem perícia em reconhecer enfermidades
espirituais, pode discernir a necessidade real do "paciente." Em cada
diagnóstico você deve ter a certeza. Um diagnóstico que é meramente subjetivo certamente
afligirá as pessoas com doenças imaginárias, insistindo teimosamente que isto
ou aquilo é o mal delas.
Às vezes, descobrimos que a enfermidade
específica está além da nossa capacidade para ajudar. Não seja tão tolo supondo
que pode lidar com toda e qualquer situação e ajudar a todos. Em prol daqueles
aos quais você pode ajudar, você deve gastar e ser gasto. Quando você não
pode ser útil, deve contar ao Senhor: "Isto está além da minha
capacidade; não posso discernir esta doença. Ainda não aprendi esta. Ó Senhor, sê
misericordioso." Nunca devemos pensar que podemos dar conta de todo o
trabalho espiritual, nem devemos procurar monopolizá-lo. Aqui temos nossa oportunidade
de ver o fornecimento da parte dos diferentes membros do Corpo. Se você achar
que certo irmão ou irmã pode tratar do problema, procure-o e diga: "Isto
está além da minha capacidade; talvez esteja dentro da sua jurisdição."
Cooperando desta maneira no Corpo, aprendemos a agir com mútuo relacionamento,
não independentemente.
Devemos ressaltar isto mais uma vez: todo
obreiro deve aprender diante do Senhor como conhecer o homem. Quantas vidas,
são estragadas depois de passarem pelas mãos de irmãos zelosos que não
aprenderam, mas, sim, dão em vão opiniões subjetivas para suprir necessidades
objetivas! As pessoas não estão necessariamente padecendo dos males que nós
imaginamos que tenham. Nossa responsabilidade é discernir sua verdadeira condição
espiritual. Se não participamos primeiramente do entendimento espiritual, como
poderemos esperar que ajudemos
os
demais filhos de Deus?
Nós Somos a Sua Instrumentalidade
Ao diagnosticar um caso, um médico pode apelar
a muitos instrumentos de medicina. Conosco, não é assim. Não temos termómetros
nem raio-x, nem qualquer outro dispositivo para nos ajudar a discernir a
condição espiritual do homem. Como, pois, discernimos se um irmão está
espiritualmente doente, ou determinamos a natureza do seu distúrbio? É
maravilhoso que Deus nos projetou para sermos "termómetros" para a
medição. Mediante a Sua operação em nossa vida, Ele deseja equipar-nos para
discernir o que "aflige" uma pessoa. Como os "médicos"
espirituais do Senhor, devemos ter um preparo interior eficiente. Devemos ter
profunda consciência do peso da nossa responsabilidade.
Suponhamos que o termómetro nunca fora
inventado. O médico teria de determinar se seu paciente estava com febre pelo
mero toque da sua mão. A mão lhe serviria de termômetro. Quão sensível e acurada
sua mão teria de ser! No trabalho espiritual, é exatamente esta a situação.
Nós somos os termómetros, os instrumentos.
Devemos passar por treinamento eficiente e disciplina rigorosa, pois tudo
quanto for deixado intocado em nós será deixado intocado em outras pessoas.
Além disto, não podemos ajudar outros a aprender lições que nós mesmos não aprendemos
diante de Deus, Quanto mais eficiente for o nosso treinamento, tanto maior será
nossa utilidade na obra de Deus. Semelhantemente, quanto o mais nos poupamos —
nosso orgulho, nossa estreiteza, nossa felicidade — tanto menor a nossa
utilidade. Se encobrirmos estas coisas em nós mesmos, não poderemos descobri-las
nos outros. Uma pessoa orgulhosa não pode lidar com outra na mesma condição; um
hipócrita não pode tocar na hipocrisia de outra pessoa, nem pode aquele que é
desregrado na sua vida ter um efeito útil sobre quem tem a mesma dificuldade.
Como sabemos bem que, se tal coisa ainda está em nossa natureza, não poderemos
condenar exatamente aquele pecado nos outros! De fato, dificilmente até mesmo o
reconhecemos nos outros. Um médico pode curar a outros sem curar a si mesmo, mas
isto dificilmente pode ocorrer no âmbito espiritual. O obreiro é, em primeiro
lugar, ele mesmo um paciente; ele deve ser curado antes de poder curar os
outros. Não pode mostrar aos outros aquilo que ele mesmo não viu. Não pode
guiar os outros por onde não pisou. Não pode ensinar aos outros o que não
aprendeu.
Devemos ver que nós somos os instrumentos
preparados por Deus para conhecermos os homens. Logo, devemos ser fidedignos, qualificados
para dar um diagnóstico acurado. A fim de que meus sentimentos sejam fidedignos,
preciso orar: "Ó Senhor, não me deixa passar intato, sem ser quebrado, e
despreparado." Devo deixar que Deus opere em mim aquilo que nunca sonhei,
de modo que possa tornar-me um vaso preparado que Ele possa usar. Um médico não
faria uso de um termómetro defeituoso. Quanto mais sério é para nós mexermos em
condições espirituais do que doenças físicas, enquanto ainda retemos nossos
próprios pensamentos, emoções, opiniões e modos. Se ainda quisermos fazer isto,
e, de repente, quisermos fazer aquilo, ainda somos instáveis. Como podemos ser
usados quando estamos tão indignos de confiança? Devemos passar pelo tratamento
de Deus, senão, nossos esforços são em vão.
Assim, outra vez, devemos enfrentar esta
pergunta: Temos consciência real da grandeza da nossa responsabilidade? O
Espírito de Deus não opera diretamente nas pessoas; faz Sua obra através dos
homens. As necessidades das pessoas são supridas, de um lado, pela disciplina
do Espírito Santo (ao ordenar seu meio-ambiente), e, do outro lado, pelo
ministério da Palavra. Sem o fornecimento do ministério da Palavra, o problema
espiritual dos santos não poderá ser solucionado. Que grande responsabilidade
recaiu sobre Seus obreiros! É seríssimo. O fornecimento que a igreja está
recebendo, mostra se a pessoa é usável ou não.
Suponhamos que é a característica de certa
doença chegar a uma temperatura de, digamos, 39º C. Mas a não ser que você
saiba a temperatura exata, seu diagnóstico não poderá ser certo. Você não pode
determinar, ao tocar o paciente com a mão, que tem uma febre de cerca de 39º C.
Assim também nos assuntos espirituais, seria por demais arriscado procurarmos ajudar
os outros enquanto nossos sentimentos e opiniões estivessem completamente
errados e nossa compreensão espiritual estivesse inadequada. Somente se formos
acurados e fidedignos é que o Espírito de Deus pode ser liberado através de
nós.
O ponto de partida de uma obra espiritual é
marcado por muitos reajustes feitos diante de Deus. Um termómetro é feito de
acordo com um padrão específico, e é cuidadosamente examinado para cumprir
especificações rígidas. Se, pois, nós somos o termómetro, quão severa deve ser
a disciplina para nos levar até o padrão de exatidão que Deus exige! Na obra de
Deus, somos "médicos" bem como "instrumentos médicos." Quão
importante é que passemos no teste dEle.
A Chave para Perceber o Espírito do Paciente
Ao conhecer a condição de um paciente, devemos
considerar tanto o lado do paciente quanto nosso lado. Se você quiser saber o
que aflige uma pessoa, deve primeiramente reconhecer seu aspecto mais
destacado. Destacar-se-á de modo tão notável que, por mais que a pessoa tente,
não poderá escondê-lo. A pessoa orgulhosa revelará o orgulho. No caso de uma
pessoa triste, uma nota de tristeza permeia até mesmo suas risadas. Invariavelmente,
a natureza da pessoa fará com que certa impressão específica seja deixada.
Há muitas referências na Bíblia que descrevem
tipos diferentes de espírito. Algumas pessoas são apressadas no seu espírito;
outras são endurecidas no seu espírito; ainda outras tem um espírito tristonho.
Podemos dizer que uma pessoa tem um espírito altaneiro, outra tem um espírito
deprimido, e assim por diante. De onde vêm estas condições diferentes do espírito?
Por exemplo, num espírito duro, de onde veio a dureza? Num espírito orgulhoso, de
onde vem a altivez? Decerto, nosso espírito humano no seu estado normal não é
colorido com coisa alguma. É projetado simplesmente para manifestar o Espírito
de Deus. Como pode ser, pois, que se fala do espírito como sendo duro, ou
orgulhoso, ou altivo, ou implacável, ou ciumento? A resposta é a seguinte: o
homem exterior e o interior não estão divididos, e, assim, a condição do homem exterior
fica sendo a do interior. O espírito é duro porque está revestido da dureza do
homem exterior, ou orgulhoso por que está revestido com o orgulho do homem
exterior, ou ciumento por causa do ciúme do homem exterior. Originalmente, o
espírito é neutro na sua natureza, mas pode adotar o caráter do homem exterior
se este último não for quebrantado.
Nosso espírito emana de Deus. Desta maneira,
originalmente é puro, antes de ser afetado pelo estado impuro do homem
exterior. Torna-se, porém, orgulhoso ou duro totalmente por causa da falta de
quebrantamento do homem exterior. Como a condição do homem exterior tende a
manchar o espírito do ponto de se manifestar com essa imperfeição! Assim, para
purificar o espírito, a pessoa deve lidar, não com o espírito, mas, sim, com o
homem exterior. Devemos reconhecer que o problema se acha, não com o espírito,
mas, sim, com o homem exterior. Podemos perceber, pelo tipo de espírito que
flui, que o homem não foi quebrantado. A condição específica do homem exterior
fica revelada no tipo de espírito com que entramos em contato. Uma vez que
tenhamos aprendido a tocar o espírito do homem, sabemos exatamente qual é sua
necessidade. O segredo de conhecer o homem está nas manifestações do seu
espírito — ao sentir aquilo do qual está revestido. Repetimos enfaticamente que
este é o princípio básico para conhecer outro homem: é por meio de sentir, ou
tocar, seu espírito. À medida em que o espírito flui, revela a natureza do
homem exterior: se ele foi quebrantado ou não, porque nosso espírito toma seu colorido
do homem exterior ao manifestar-se.
Quando alguém está forte num aspecto específico,
é semelhante a alguma coisa que se destaca diante de você. É só estender a mão
e tocá-lo. Se você o tocar, saberá o que é. Reconhecerá que esta coisa é o homem
exterior dele, ainda intato. Se você puder sentir assim o espírito de um homem,
conhecerá sua condição. Saberá o que é revelado por ele ou aquilo que está
procurando esconder. Por isso, dizemos outra vez: se você quiser conhecer um homem,
deve conhecê-lo de acordo com o seu espírito.
Nossos Próprios Preparativos para Conhecermos o Homem
Consideremos agora nossa parte em conhecer o
homem. As medidas disciplinares que o Espírito Santo toma conosco são lições
dadas por Deus, mediante as quais, numa coisa após outra, somos quebrantados.
São necessários muitos quebrantamentos em muitas áreas das nossas vidas para
chegarmos a um lugar de utilidade. Quando dizemos que podemos tocar outra pessoa
através do espírito, não quer dizer que podemos tocar todos os indivíduos de modo
semelhante, nem que podemos discernir na sua totalidade a condição espiritual
doutra pessoa. É simplesmente que no aspecto específico em que fomos
disciplinados pelo Espírito Santo e quebrantados pelo Senhor, podemos tocar em
outra pessoa. Se, em algum aspecto, não fomos quebrantados não podemos, de modo
algum, suprir aquela necessidade do nosso irmão. Justamente naquele ponto, nosso
espírito é insensível e incapaz.
Este é um fato espiritual invariável! Nosso espírito
é liberado de acordo com o grau do nosso quebrantamento. Aquele que aceitou
mais disciplina é aquele que melhor pode servir. Quanto mais a pessoa é quebrantada,
tanto mais sensível ela é. Quanto mais perdas a pessoa sofrer, tanto mais tem
para dar. Onde quer que desejamos salvar a nós mesmos, naquele mesmo ponto
ficamos espiritualmente inúteis. Sempre que nos conservamos e nos desculpamos,
naquele ponto estamos privados de sensibilidade e suprimento espirituais. Que
ninguém imagine que pode ser eficaz e desconsiderar este princípio básico.
Somente aqueles que aprenderam podem servir.
Você pode aprender as lições de dez anos num só ano, ou levar vinte ou trinta
anos para aprender lições de um só ano. Qualquer atraso na aprendizagem importa
num atraso no servir. Se Deus colocou um desejo no seu coração para servir a
Ele, você deve procurar entender em que isso implica. O caminho do serviço acha-se
no quebrantamento, ao aceitar a disciplina do Espírito Santo. A medida do seu serviço
é determinada pelo grau da disciplina e do quebrantamento. Tenha a certeza de
que nem a emoção nem a habilidade humana pode ajudar. O tanto que você
realmente possui baseia-se em quanto Deus operou na sua vida. Logo, quanto mais
Ele lida com você, tanto mais aguçada é sua percepção do homem. Quanto mais
você é disciplinado pelo Espírito Santo, tanto mais prontamente o seu espírito
poderá tocar em outro.
É muito importante lembrar-nos de que, embora
o Espírito de Deus seja dado a nós, os crentes, uma vez para sempre, em nosso espírito,
devemos continuar a aprender enquanto a vida durar. Assim, quanto mais
aprendemos, tanto mais podemos discernir. É uma fonte de mágoa para nós que
tantos irmãos e irmãs no Senhor não sabem exercer o discernimento espiritual.
Muitas pessoas não diferenciam entre aquilo que é do Senhor e aquilo que é da
natureza humana. Somente à medida em que temos experiência da maneira severa do
Senhor lidar conosco em certa questão, é que podemos perceber, até mesmo o seu
surgimento em outras pessoas. Não precisamos esperar que o problema se
multiplique. Podemos discernir muito tempo antes da sua proliferação. Deste modo,
nossa sensibilidade espiritual é conquistada paulatinamente através do experimentar
a mão de Deus sobre nós. Por exemplo, alguns talvez condenem mentalmente o
orgulho, sim, até mesmo preguem contra ele, sem, porém, sentir a pecaminosidade
do orgulho no seu próprio espírito. Desta maneira, quando o orgulho aparece no
seu irmão, seu espírito não fica aflito; pode até mesmo simpatizar. Chega,
depois, o dia em que o Espírito Santo opera na sua vida de tal maneira que
realmente você vê o que é o orgulho. Deus lida com ele, e seu orgulho é
consumido. Embora sua pregação contra o orgulho possa soar igual à anterior,
agora, porém, cada vez que um espírito de orgulho aparece no seu irmão, você
sente sua feiura, e fica aflito. O que você aprendeu de Deus e ficou vendo, capacita-o
a sentir e a ficar aflito. (A "aflição" descreve mais apropriadamente
tal sensibilidade interior). Agora que reconhece esta indisposição, pode servir
ao seu irmão. Anteriormente, era atacado pela mesma aflição; agora está curado.
(Isto não lhe dá a entender que deva alegar a libertação completa —
simplesmente que conhece certa medida de cura.) É assim que chegamos a ter
conhecimento espiritual.
A sensibilidade espiritual é realizada através
de muitos tratamentos. Realmente tiramos proveito quando preservamos a nós
mesmos? "Quem quiser preservar a sua vida, perdê-la-á." Devemos pedir
ao Senhor que não retire Sua mão de nós. Quão trágico é deixar de reconhecer o
que o Senhor está fazendo. Podemos até mesmo estar inconscientemente resistindo
a Sua mão. A ausência do entendimento espiritual é devida à falta de
aprendizagem espiritual. Logo, reconheçamos que quanto mais tratamento recebemos,
tanto mais conheceremos os homens e as coisas, e tanto mais poderemos suprir as
necessidades dos outros. Não há outra maneira de expandir a esfera do serviço;
devemos alargar o escopo das nossas experiências.
Aprendendo a Praticar Isto
Uma vez aprendidas estas lições básicas,
descobrimos que nosso espírito é liberto e capaz de definir a verdadeira condição
de outras pessoas. Como podemos colocar isto em prática?
Para tocar o espírito de um homem, devemos
esperar até que ele abra sua boca e fale. Poucos chegam à posição, em qualquer
tempo, em que podem tocar o espírito do homem sem primeiramente ouvir o que ele
tem para dizer. A Palavra de Deus diz: "Porque
a boca fala do que está cheio o coração" (Mateus 12:34). Seja qual for
sua intenção real, seu espírito é revelado por aquilo que sua boca fala. Se for
altivo, um espírito altivo se manifestará; se for hipócrita, um espírito
hipócrita ficará em evidência; ou se for invejoso, um espírito de ciúme. Enquanto
você o ouve falar, pode tocar seu espírito. Não preste atenção àquilo que ele
diz, mas note especialmente a condição do seu espírito. Realmente conhecemos o
homem, não meramente pelas suas palavras, mas, sim, pelo seu espírito.
Em certa ocasião, quando o Senhor Jesus estava
viajando em direção a Jerusalém, dois dos discípulos viram que os samaritanos
não O recebiam. Perguntaram a Ele: "Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?" (Lucas 9:
54). Enquanto falavam, seu espírito foi revelado. A resposta do Senhor foi: "Vós não sabeis de que espírito
sois" (9: 55). O Senhor nos mostra aqui que escutar as palavras de um
homem é conhecer seu espírito. Tão logo as palavras são pronunciadas, o
espírito é revelado, "porque a boca fala do que está cheio o
coração."
Há ainda outra consideração a ser levada em
conta. Quando você está escutando uma conversa, não permita que o assunto em
discussão distraia você do espírito. Suponhamos que dois irmãos estejam envolvidos
numa contenda, e cada um culpa o outro. Se esta questão é trazida diante de
você, como agirá? Embora você talvez não tenha nenhum modo objetivo de
averiguar os fatos se apenas os dois estiverem presentes, você certamente sabe
que, tão logo que eles abrem a boca, seus espíritos são revelados. Entre os
cristãos, o certo e o errado é julgado, não somente pela ação, mas também pelo
espírito. Quando um irmão começa a falar, você pode sentir imediatamente que
seu espírito está errado, embora talvez lhe faltem informações sobre os fatos
do caso. Um dos irmãos talvez se queixe que o outro ralhou com ele, mas
imediatamente você sente que seu espírito não está certo! A questão verdadeira está
com o espírito.
Diante de Deus, o certo ou o errado não é
determinado tanto pelo ato quanto pelo espírito. Quão frequentemente na igreja
uma ação errada é acompanhada por um espírito errado. Mas se o julgamento for
feito exclusivamente segundo o ato, arrastamos a igreja para outro âmbito.
Deveríamos estar no âmbito do espírito, não naquele da mera ação exterior.
Uma vez que nosso próprio espírito tenha sido
liberado, podemos detectar a condição do espírito dos outros. Se entrarmos em
contato com um espírito que está fechado, devemos exercer nosso espírito em
julgar a questão e discernir o homem. Que possamos dizer com Paulo: "Daqui por diante, a ninguém conhecemos
segundo a carne" (2 Co 5:16). Não conhecemos o homem segundo a carne,
mas, sim, segundo o espírito. Tendo aprendido esta lição básica, fornecemos um caminho
para Deus operar Seu propósito.
CAPÍTULO 5
A IGREJA E A OBRA
DE DEUS
Se realmente entendermos a natureza da obra de
Deus, prontamente reconheceremos que o homem exterior verdadeiramente é um empecilho formidável. É
verdade que Deus é muito impedido pelo homem. O povo de Deus deve conhecer o
propósito supremo da igreja e também seu inter-relacionamento, o poder de Deus,
e a obra de Deus, dentro da igreja.
A Manifestação de Deus e a Restrição de Deus
Houve um tempo em que Deus Se confiou à forma
humana — na Pessoa de Jesus de Nazaré. Antes do Verbo Se tornar carne, a
plenitude de Deus não conhecia limite algum. No entanto, uma vez que a
encarnação veio a ser uma realidade, Sua obra e Seu poder eram limitados a esta
carne. Este Homem, Cristo Jesus, restringirá a Deus ou O manifestará? A Bíblia
nos mostra que, longe de limitar a Deus, Ele manifestou a plenitude de Deus de
modo maravilhoso.
Em nossos dias, Deus Se confia à igreja. Seu
poder e Sua obra estão na igreja. Assim como nos Evangelhos achamos toda a obra
de Deus dada ao Filho, assim hoje Deus confiou à igreja todas as Suas obras, e
não agirá à parte dela. Desde o Dia do Pentecoste até ao tempo presente, a obra
de Deus tem sido levada a efeito através da igreja. Pense na responsabilidade tremenda
da igreja! O ato de Deus em confiar-Se à igreja é como Seu ato anterior de confiar-SE a um só Homem,
Cristo — sem reservas, nem restrições. A igreja, porém, pode restringir a obra
de Deus ou limitar Sua manifestação.
Jesus de Nazaré é o próprio Deus. Seu ser
inteiro, de dentro para fora, é revelar a Deus. Suas emoções refletem as emoções
de Deus; Seus pensamentos revelam os pensamentos de Deus. Enquanto estava nesta
terra podia dizer: "Não para fazer a
minha própria vontade; e, sim, a vontade daquele que me enviou . . . O Filho
nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai ...
Porque eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai que me enviou, esse me tem prescrito
o que dizer e o que anunciar" (João 6: 38; 5:19; 12: 49). Aqui vemos
um Homem a quem Deus está confiado. Ele é o Verbo que Se tornou carne. É Deus
que Se torna homem. É perfeito. Quando veio o dia em que Deus desejou
distribuir Sua vida entre os homens, aquele Homem podia declarar: "Se o grão de trigo, caindo na terra
.. . morrer, produz muito fruto" (João 12: 24). Deste modo, Deus
escolheu a igreja para ser Seu vaso hoje — o vaso daquilo que Ele fala, para a
manifestação do Seu poder e da Sua operação.
O ensino básico dos Evangelhos é a presença de
Deus e em um Homem, ao passo que o das Epístolas é a de Deus na igreja. Que
nossos olhos sejam abertos ao fato glorioso: Deus anteriormente habitava no
Homem Jesus Cristo, mas agora Deus está somente na igreja, e não em qualquer
outra coisa.
Quando esta luz raiar sobre nós, ergueremos
espontaneamente nossos olhos ao céu, dizendo: "Ó Deus! Quanto nós Te impedimos!"
Em Cristo, o Deus onipotente ainda era onipotente sem sofrer qualquer restrição
ou estreitamento. O que Deus espera hoje é que este mesmo poder possa
permanecer intato à medida em que Ele reside na igreja. Ele deve ficar tão livre
para manifestar-Se na igreja quanto o era em Cristo. Qualquer restrição ou
incapacidade na igreja invariavelmente limitará a Deus. Esta é uma coisa muito séria; não a
mencionamos levianamente. O empecilho em cada um de nós constitui-se em empecilho
para Deus.
Por que a disciplina do Espírito Santo é tão
importante? Porque a divisão entre o espírito e a alma é tão urgente? É porque Deus
precisa ter um caminho através de nós. Que ninguém pense que estamos
interessados apenas na experiência espiritual. Nossa solicitude é o caminho de
Deus e Sua obra. Deus está livre para operar através das nossas vidas? A não
ser que sejamos tratados e quebrantados através da disciplina, restringiremos a
Deus. Sem o quebrantamento do homem exterior, a igreja não pode ser um canal
para Deus.
O Quebrantamento — A Maneira de Deus Operar
Passemos agora a considerar como o
quebrantamento do homem exterior afetará nosso modo de ler a Bíblia, nosso modo
de ser ministros da Sua Palavra, e nossa pregação do evangelho.
(1)
Lendo a Bíblia: Está além de dúvida que o que somos,
determina o proveito que tiramos da Bíblia. Quão frequentemente o
homem, na sua soberba, depende da sua mente não renovada e confusa para
ler a Bíblia. O fruto é nada senão seu próprio pensamento. Não toca o
espírito das Sagradas Escrituras. Se esperamos encontrar o Senhor na Sua
Palavra, nossos pensamentos devem primeiramente ser quebrantados por
Deus. Talvez tenhamos alto conceito da nossa habilidade, mas para Deus
é um grande obstáculo. Nunca pode levar-nos para o pensamento de Deus.
Há, pelo menos, duas exigências básicas para
ler a Bíblia: primeiramente, nosso pensamento deve entrar no pensamento da
Bíblia; e, em segundo lugar, nosso espírito deve entrar no espírito da Bíblia.
Você deve pensar como o escritor — seja Paulo, Pedro ou João — estava pensando
quando escrevia a Palavra de Deus. Seu pensamento deve começar onde o
pensamento dele começa, e desenvolver como o dele se desenvolve. Você deve ter
a capacidade de raciocinar como ele raciocina e de exortar como ele exorta. Em
outras palavras, seu pensamento deve ser engrenado com o pensamento dele. Isto
permitirá ao Espírito que lhe dê o significado exato das Escrituras.
Pense numa pessoa que vem à Bíblia com sua
mente já fixa. Lê a Bíblia para obter apoio para suas doutrinas preconcebidas. Que
tragédia! Uma pessoa experiente, depois de escutar alguém assim falar durante
cinco ou dez minutos, pode discernir se quem fala está usando a Bíblia para
suas próprias finalidades, ou se seu pensamento entrou no pensamento da Bíblia.
Há uma diferença de âmbitos aqui. Uma pessoa pode levantar-se e dar uma
mensagem agradável que parece ser bíblica, mas, na realidade, seu pensamento é
contraditório ao pensamento da Bíblia. Ou podemos escutar alguém pregar, cujo pensamento
expressa o pensamento da Bíblia e, portanto, é harmonioso e unido com ela.
Embora esta condição deva ser a norma, nem todos chegam a ela. Para unir nosso
pensamento com o pensamento da Bíblia, é necessário que nosso homem exterior
seja quebrantado. Não pense que nossa leitura bíblica é fraca por causa de
falta de instrução. O defeito está muito mais em nós, porque nossos pensamentos
não foram subjugados por Deus. Ser quebrantado desta maneira é cessar das nossas
próprias atividades e do nosso pensamento subjetivo, e paulatinamente começar a
tocar a mente do Senhor e seguir a tendência do pensamento da Bíblia. Não é
antes de ser quebrantado o homem exterior que podemos entrar no pensamento da
Palavra de Deus.
Ora, embora isto seja importante, ainda nos
falta mencionar o assunto primário. A Bíblia é mais do que palavras, ideias e
pensamentos. O aspecto mais destacado da Bíblia é que o Espírito de Deus é
liberado através deste Livro. Quando um escritor, seja Pedro, João, Mateus ou
Marcos, é inspirado pelo Espírito Santo, sua mente renovada segue o pensamento inspirado
e seu espírito é liberado juntamente com o Espírito Santo. O mundo não pode
entender que há um espírito na Palavra de Deus, e que aquele espírito pode ser
liberado exatamente como é manifestado no ministério profético. Hoje, se você
estiver escutando uma mensagem profética, reconhecerá que está presente algo
misterioso, além das palavras e dos pensamentos. Você pode sentir isto
claramente, e podemos muito bem chamá-lo o espírito na Palavra de Deus.
Não há somente pensamentos na Bíblia; o
próprio espirito se manifesta através d'Ela. Assim, é somente quando seu
espírito pode sair e tocar o espírito da Bíblia, que você pode entender
o que a Bíblia está dizendo. Ilustrando: pensemos num menino mau que
deliberadamente quebra a janela de um vizinho. O vizinho sai e lhe faz
fortíssimas censuras. Quando a mãe do menino fica sabendo da travessura,
ela também repreende severamente. Mas, de alguma maneira, há uma
diferença de espírito entre as duas repreensões. A primeira é
mal-humorada, feita com um espírito zangado; a outra expressa o amor,
a esperança, e o treinamento. Este é apenas um exemplo simples. O
Espírito que inspira a composição das Escrituras o Espírito eterno,
sempre presente na Bíblia. Se nosso homem exterior foi quebrantado,
nosso espírito é liberado e pode tocar aquele Espírito que inspira as
Escrituras. De outra forma, a Bíblia permanecerá como um livro morto em
nossas mãos.
(2)
O Ministério da Palavra: Deus deseja que entendamos a Sua
Palavra, pois este é o ponto de partida do serviço espiritual. Está igualmente
solícito para colocar Sua Palavra como mensagem dinâmica em nosso espírito de
modo que possamos usá-la para ministrar à igreja. Em Atos 6:4 lemos: "E,
quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra."
"Ministério" significa servir. Assim, o ministério da palavra
significa servir as pessoas com a palavra de Deus.
No ministério, qual é a dificuldade que nos
leva a deixar de liberar a palavra dentro de nós? Frequentemente, alguém pode
sentir-se muito preocupado com uma palavra que, segundo sente, deve comunicar
aos irmãos. Mesmo assim, enquanto se levanta para falar frase após frase, a
preocupação interna permanece tão pesada como sempre. Mesmo depois de passar uma
hora, não há senso de alívio, e, finalmente, sai carregando o mesmo fardo de
uma mensagem que não foi entregue. Por que? É porque seu homem exterior não foi
quebrantado. Ao invés de serem úteis, as faculdades da alma tornam-se um
obstáculo para o homem interior.
Uma vez, porém, que o homem exterior for
quebrantado, a expressão já não é problema. Então, a pessoa pode pensar em
palavras apropriadas para expressar seu sentimento no íntimo. Através da
liberação, o fardo interno é aliviado. Esta é a maneira de ministrar a Palavra
de Deus à igreja. Repetimos, então: o homem exterior é o maior empecilho ao
ministério da Palavra de Deus.
Muitos têm a noção errónea de que são as
pessoas habilidosas que melhor podem ser usadas. Como isto é errado! Não
importa quão habilidoso você seja, o exterior nunca poderá substituir o homem
interior. Somente depois de o homem exterior ter sido quebrantado é que o
interior pode achar pensamento adequado e palavras apropriadas. A casca do
homem exterior deve ser esmagada por Deus. Quanto mais é despedaçada, tanto
mais a vida no espírito é liberada. Enquanto esta casca permanecer intata, a mensagem
que pesa no espírito não pode ser liberada, nem a vida e o poder de Deus podem
fluir de você para a igreja. É principalmente através do ministério da Palavra
de Deus que Sua vida e Seu poder são fornecidos. A não ser que você tenha seu
homem interior liberado, as pessoas podem ouvir sua voz; não podem tocar a
vida. Você pode ter uma palavra para dar, mas outras pessoas deixam de
recebê-la; você não tem meios de expressão.
A dificuldade é que a vida que há dentro,
deixa de fluir. Há uma Palavra de Deus atuante por dentro, mas não pode ser manifestada
por causa do obstáculo do lado de fora. Deus não tem um livre caminho através
de você.
(3)
Pregando o Evangelho: Há um conceito geral, falso, de que
as pessoas creem no evangelho porque, ou foram mentalmente convictas da
exatidão doutrinária, ou emocionalmente comovidas pelo seu apelo. Na realidade,
os que correspondem ao evangelho por qualquer destas duas razões não permanecem
nEle. O intelecto e a emoção precisam ser alcançados, mas estes sozinhos, são
insuficientes. A mente pode encontrar-se com a mente, e a emoção pode alcançar
a emoção, mas a salvação sonda mais profundamente. O espírito deve tocar o espírito.
Somente quando o espírito do pregador floresce e brilha é que os pecadores caem
e se rendem a Deus. Este é o espírito apropriado e necessário para a pregação
do evangelho.
Certo mineiro grandemente usado por Deus
escreveu um livro chamado Seen and Heard ("Visto e Ouvido"),
em que relata suas experiências ao pregar o evangelho. Fomos profundamente comovidos
ao ler este livro. Embora fosse um irmão simples, sem alto grau de cultura nem
com dons especiais, ofereceu-se inteiramente ao Senhor e foi poderosamente
usado por Ele. Uma coisa o caracterizava: era um homem quebrantado; seu
espírito era puro. Quando estava numa reunião, ouvindo um pregador, sentiu uma
preocupação tão grande pelas almas que pediu ao pregador permissão para falar.
Subiu ao púlpito, mas não vinham as palavras. Seu homem interior ardia tanto
com uma paixão pelas almas que suas lágrimas jorravam. Finalmente, conseguiu
pronunciar apenas umas poucas sentenças pouco compreensíveis. Mesmo assim, o
Espírito Santo encheu aquele lugar de reunião; as pessoas ficaram convictas dos
seus pecados e da sua condição de perdidas. Aqui havia um jovem que era quebrantado
— tinha poucas palavras, mas quando seu espírito fluía, as pessoas eram
poderosamente tocadas. Ao ler sua autobiografia, reconhecemos que ele era alguém
cujo espírito era totalmente liberto. Era o instrumento para salvar a muitos
durante sua vida.
Este é o modo certo de pregar o evangelho.
Sempre que você vê alguém que não é salvo, sente que deve dar-lhe o evangelho, você
deve permitir que seu espírito seja liberado. Pregar o evangelho é puramente
uma questão de ter o homem exterior quebrantado de modo que o homem interior
possa fluir e tocar outros. Quando seu espírito toca o espírito de outra pessoa,
o Espírito de Deus vivifica aquele espírito que está em trevas de modo que
aquela pessoa possa ser maravilhosamente salva. Se, porém, seu espírito estiver
amarrado pelo homem exterior, Deus não tem via de saída através de você, e o
evangelho fica bloqueado. É por isso que focalizamos tanta atenção em lidar com
o homem exterior. Se nos falta este tratamento, não temos poder para ganhar
almas, embora tenhamos todas as doutrinas de cor. A salvação vem quando nosso
espírito toca o espírito de outra pessoa. Então, aquela alma não pode deixar de
prostrar-se aos pés de Deus. Ó amados, quando nosso espírito é verdadeiramente
liberado, as almas certamente serão salvas.
Uma vez que as pessoas são salvas, Deus não
quer que elas esperem para lidar com seus pecados, que esperem mais anos para
se consagrarem, e que esperem ainda mais tempo para responderem à chamada de
realmente seguirem ao Senhor. Tão logo que as pessoas creem, devem
imediatamente voltarem-se dos seus pecados, consagrarem-se totalmente ao
Senhor, e romperem o poder das coisas deste mundo. Sua história deve ser como
aquelas que são registradas nos Evangelhos e em Atos. Para o evangelho ter seu
efeito mais completo no homem, o Senhor precisa ter um caminho nas vidas dos
mensageiros do evangelho.
Nestes anos temos ficado totalmente convictos
de que o Senhor está trabalhando para a recuperação. O evangelho da graça e o
evangelho do reino devem ser juntados. Nos Evangelhos, os dois nunca são
separados. Somente em anos posteriores é que parece que aqueles que ouviram o
evangelho da graça sabem pouco ou nada do evangelho do reino. Deste modo, os
dois foram separados. Mas já é tempo para eles serem unidos, de modo que as
pessoas sejam completamente salvas, deixando tudo e se consagrando totalmente
ao Senhor.
Curvemos nossa cabeça diante do Senhor e
reconheçamos que o evangelho deve ser completamente pregado, e seus mensageiros
totalmente tratados. Para o evangelho entrar nos homens, devemos permitir que
Deus seja manifestado em nós. Assim como a pregação eficaz do evangelho requer
mais poder, assim também os mensageiros do evangelho devem pagar um preço mais
alto. Devemos colocar tudo sobre o altar. Oremos assim: "Senhor, coloco
meu tudo sobre o altar. Acha um caminho através de mim a fim de que também a
igreja ache um caminho em mim. Eu não gostaria de ser aquele que bloqueia a Ti
e que bloqueia a igreja."
O Senhor Jesus nunca restringiu Deus de
qualquer maneira. Durante quase dois mil anos Deus tem trabalhado na igreja,
visando o dia em que a igreja já não O restringirá. Assim como Cristo manifesta
plenamente a Deus, assim também será com a igreja. Passo a passo, Deus está
instruindo Seus filhos e tratando com eles; uma vez após outra sentimos Sua mão
sobre nós. Assim será até aquele dia em que a igreja fique sendo realmente a
plena manifestação de Deus. Hoje, voltemo-nos para o Senhor e confessemos:
"Senhor, estamos envergonhados. Atrasamos a Tua obra; fomos um empecilho na
Tua vida; bloqueamos a propagação do evangelho; e limitamos o Teu poder."
Individualmente em nosso coração, dediquemo-nos a Ele novamente, dizendo:
"Senhor, ponho meu tudo sobre o altar, a fim de que Tu tenhas um caminho através
de mim."
Se esperamos que a eficácia do evangelho seja
plenamente recuperada, a consagração deve ser total. Devemos consagrar-nos a
Deus assim como na igreja primitiva. Que Deus tenha uma via de saída através de
nós.
CAPÍTULO 6
O QUEBRANTAMENTO E
A DISCIPLINA
Para o homem exterior ser quebrantado, é
imperativo uma plena consagração. Mesmo assim, devemos entender que este ato de
crise por si só, não resolverá a totalidade do nosso problema no serviço. A
consagração é meramente uma expressão da nossa disposição para estar nas mãos
de Deus, e pode ocorrer em apenas uns poucos minutos. Não pense que Deus pode acabar
Seus tratos conosco neste tempo tão curto. Embora estejamos dispostos a
oferecer-nos completamente a Deus, estamos apenas no começo da estrada
espiritual. É como entrar pelo portão. Depois da consagração, deve haver a
disciplina do Espírito Santo para nos tornar em vasos dignos para o uso do
Mestre. Sem consagração, o Espírito Santo encontra dificuldade em nos disciplinar.
Mesmo assim, a consagração não pode servir como substituto da Sua disciplina.
Aqui, pois, há uma distinção vital: nossa
consagração somente pode ser de acordo com a medida do nosso discernimento espiritual
e da nossa compreensão, mas o Espírito Santo disciplina de acordo com Suas
próprias luzes. Realmente não sabemos o quanto a nossa consagração envolve.
Nossa luz é tão limitada que, quando nos parece que está no seu auge, aos olhos
de Deus é negra como breu. A exigência excede a tudo quanto temos a
possibilidade de consagrar — pelo menos, no nosso entendimento limitado. A
disciplina do Espírito Santo, por outro lado, nos é medida conforme nossa
necessidade vista na própria luz de Deus. Ele conhece nossa necessidade especial
e, portanto, pelo Seu Espírito, ordena nossas circunstâncias de tal maneira que
leva a efeito o quebrantamento do homem exterior. Veja até que ponto a
disciplina do Espírito Santo transcende nossa consagração.
Visto que o Espírito Santo opera conforme a
luz de Deus, Sua disciplina é eficiente e completa. Frequentemente estranhamos
as coisas que nos acontecem, mas, se fôssemos deixados por conta própria,
poderíamos enganar-nos com a melhor das nossas escolhas. A disciplina que Ele
ordena transcende nosso entendimento. Quão frequentemente somos apanhados despreparados
e concluímos que, decerto, uma coisa tão drástica não é nossa necessidade.
Muitas vezes, Sua disciplina desce sobre nós repentinamente, sem recebermos
aviso prévio! Talvez insistamos que estamos vivendo "na luz", mas o
Espírito Santo está tratando conosco de acordo com a luz de Deus. A partir do
momento em que O recebemos, Ele tem ordenado nossas circunstâncias para nosso
proveito de acordo com Seu conhecimento de nós.
A operação do Espírito Santo em nossas vidas
tem seu lado positivo bem como negativo — ou seja, há tanto um lado construtivo
quanto um destrutivo. Depois de nascermos de novo, o Espírito Santo habita em
nós, mas nosso homem exterior mui frequentemente O priva da Sua liberdade. É
como procurar andar com um par de sapatos do tamanho errado. Porque nosso homem
exterior e o interior estão em desacordo entre si, Deus tem de empregar
quaisquer meios que considera eficaz em demolir qualquer fortaleza sobre a qual
nosso homem interior não tem controle algum.
Não é mediante o fornecimento de graça ao
homem interior que o Espírito Santo quebranta o exterior. É lógico que Deus
quer que o homem interior seja forte, mas Seu método é utilizar meios externos
para diminuir nosso homem exterior. Seria quase impossível para o homem
interior realizar isto, visto que, os dois são tão diferentes quanto à sua
natureza que dificilmente podem causar qualquer ferida um ao outro. A natureza
do homem exterior e a das coisas externas são semelhantes. Desta maneira, o
primeiro pode ser facilmente afetado por estas últimas. As coisas externas
podem ferir o homem exterior muito dolorosamente. É assim que Deus usa coisas
externas para tratar do nosso homem exterior.
Você se lembra que a Bíblia diz que dois
pardais são vendidos por um asse (Mt 10: 29) e que cinco pardais são vendidos por
dois asses (Lc. 12: 6). O preço certamente é barato, e o quinto pardal é
oferecido de graça. Mesmo assim, "nenhum
deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E quanto a vós outros,
até os cabelos da cabeça estão todos contados" (Mt 10:29, 30). Não
somente cada cabelo é contado, como também é numerado. Podemos, portanto, ter
certeza de que todas as nossas circunstâncias são ordenadas por Deus. Nada é
acidental.
A providência de Deus é de acordo com Seu
conhecimento das nossas necessidades, e tem em mira o despedaçar do nosso homem
exterior. Sabendo que uma certa coisa externa nos afetará assim, Ele dispõe a
situação a fim de nos fazer encontrar com ela uma vez, duas vezes, e talvez até
mais vezes. Você não percebe que todos os eventos da sua vida durante os
últimos cinco anos ou dez anos foram ordenados por Deus para sua educação? Se
você murmurou e se queixou, você estava ignorando a disciplina do Espírito
Santo. Lembre-se de que tudo quanto nos acontece é medido pela mão de Deus para
nosso bem supremo. Embora, provavelmente não seja o que escolheríamos, Deus sabe
o que é melhor para nós. Onde estaríamos nós hoje, se Deus não tivesse nos
disciplinado assim por meio de ordenar nossas circunstâncias? É exatamente isto
que nos conserva puros, e andando nos Seus caminhos. Como são estultos aqueles que
têm murmurações na sua boca e rebelião no seu coração diante das próprias
coisas que o Espírito Santo lhes distribuiu sob medida para seu próprio bem.
Tão logo somos salvos, o Espírito Santo começa
a distribuir disciplina; mas não pode agir livremente até que nossa consagração
seja completa. Depois da pessoa ser salva mas ainda não consagrada, e enquanto
ainda ama a si mesma mais do que a Deus, o Espírito Santo, mesmo assim, está
operando para trazê-la sob controle e quebrantar seu homem exterior, a fim de
que, Ele possa operar sem impedimento.
Finalmente, vem um momento em que você percebe
que não pode viver por si só e para
si mesmo. Na luz vaga que você possui, você vem para Deus e diz:
"Consagro-me a Ti. Quer venha a vida, quer venha a morte, entrego-me nas
Tuas mãos." Isto fortalecerá a obra do Espírito Santo na sua vida. Nisto
acha-se a importância da consagração: deixa o Espírito Santo operar sem
restrição. Não ache estranho, portanto, quando muitas coisas inesperadas lhe
acontecem depois da sua consagração.
Você disse ao Senhor: "Senhor! Faz o que
achas melhor na minha vida." Agora, depois de você ter-se colocado assim incondicionalmente
nas Suas mãos, o Espírito Santo pode operar livremente em você. Para resolver
de todo o coração que seguirá ao Senhor, você deve prestar bastante atenção à
obra disciplinar do Espírito Santo.
O Maior Meio de Graça
Deus tem outorgado Sua graça a nós desde o dia
em que fomos salvos. As maneiras pelas quais podemos receber graça da parte de
Deus são chamadas os "meios de graça." A oração e o escutar uma
mensagem são dois exemplos, porque através destes meios, podemos aproximar-nos
de Deus e receber graça. Este termo descritivo: "os meios de graça,"
têm sido universalmente aceitos pela Igreja no decurso dos séculos. Recebemos graça
através das reuniões, das mensagens, das orações, e assim por diante. Mas decerto
o maior meio de graça que não podemos nos dar ao luxo de negligenciar, é a
disciplina do Espírito Santo. Nada pode ser comparado com este meio de graça —
nem a oração, nem as leituras bíblicas, nem as reuniões, nem as mensagens, nem
a meditação, nem o louvor. Entre todos os meios de graça dados por Deus, parece
que este é o mais importante.
Seguir a história deste meio de graça pode
mostrar-nos quão longe já andamos com o Senhor. O que experimentamos diariamente,
no lar ou na escola ou na fábrica ou na estrada, é ordenado pelo Espírito Santo
para nosso máximo benefício. Se não tiramos proveito deste maior meio de graça,
sofremos uma perda terrível. Nenhum dos outros meios pode substituí-lo, por
mais preciosos que sejam. As mensagens nos alimentam, a oração nos restaura, a
Palavra de Deus nos refrigera, e ajudar aos outros libera nosso espírito. Mas
se nosso homem exterior permanecer forte, damos a todos aqueles que entram em
contato conosco, a impressão de sermos mistos e impuros. As pessoas reconhecerão
nosso zelo mas também nossos motivos mistos, nosso amor para com o Senhor, mas
também nosso amor para conosco. Sentem que somos um irmão precioso, porém difícil,
pois nosso homem exterior não foi quebrantado. Não nos esqueçamos que, embora
sejamos edificados através de mensagens, da oração, e da Bíblia, o maior meio
de edificação é a disciplina do Espírito Santo.
A partir de então deve haver, da nossa parte,
uma consagração completa de modo que devemos submete-nos àquilo que o Espírito
Santo ordena. Semelhante submissa traz bênçãos para nós. Se, ao invés disto,
disputamos com Deus e seguimos nossas próprias inclinações, perderemos o caminho
da Sua bênção. Uma vez que reconhecemos que todas as providências de Deus são
para nosso máximo proveito —até mesmo coisas que nos são desagradáveis — e
estamos dispostos a aceitar estas coisas como medidas disciplinares da parte
d'Ele, veremos como o Espírito Santo fará uso de todas estas coisas ao lidar
conosco.
Tratamentos de Vários Tipos
Sejam quais forem as coisas às quais você está
ligado, Deus tratará delas uma após a outra. Nem seque trivialidades tais como
as vestes, o comer e o beber podem escapar à mão cuidadosa do Espírito Santo.
Ele não negligenciará uma só área na sua vida. Você pode até mesmo ignorar sua afinidade
por uma certa coisa, mas Ele sabe, e trata dela de modo muitíssimo eficiente.
Até que venha o dia em que todas estas coisas são destruídas, você não conhece
liberdade perfeita. Nestes tratamentos, você pode finalmente reconhecer a
eficiência do Espírito Santo. Coisas há mui esquecidas, são trazidas à mente
pelo Senhor. As obras de Deus são perfeitas, e nada menos do que a perfeição
pode satisfazer a Ele. Deus não pode parar no meio do caminho. Às vezes,
tratará com você através d'outras pessoas, planejando para você ficar junto com
uma pessoa com quem está zangado, ou a quem você despreza, ou de quem tem ciúmes;
ou, muito frequentemente, é através daqueles que você ama. Antes disto, você
não sabia quão impuro e misturado você era, mas depois você reconhece quanto
"lixo" havia em você. Você pensava que era totalmente do Senhor, mas,
depois de receber a disciplina do Espírito Santo, começa a reconhecer os
efeitos de longo alcance que as coisas externas tinham sobre você.
Além disto, a mão de Deus pode tocar na vida
dos nossos pensamentos. Descobrimos que nossos pensamentos são confusos,
independentes, descontrolados. Fingimos ter mais sabedoria do que outros. É
então que o Senhor nos deixa colidir com um muro ou espatifar-nos até o pó - tudo
para nos mostrar que não devemos ter a ousadia de usar nossos pensamentos
desordenadamente. Uma vez que tenhamos sido iluminados nisto, temeremos nossos
próprios pensamentos como o fogo. Da maneira como se recolhe a mão
imediatamente diante da chama, assim nós também nos recolheremos
instantaneamente quando encontramos nossos pensamentos descontrolados. Lembraremos
a nós mesmos: "Não é assim que devo pensar; estou com medo de seguir meus
próprios pensamentos."
Além disto, Deus assim disporá nossas circunstâncias
de modo que possa lidar com nossas emoções. Algumas pessoas são extremamente
emotivas. Quando estão jubilosas, não podem se conter; quando estão deprimidas,
não podem ser consoladas. A totalidade da vida delas gira em torno das suas
emoções, e seu júbilo resulta em dissipação, e sua depressão em inatividade. Como
Deus retifica esta situação? Coloca-as em situações em que não ousam ser
demasiadamente felizes quando estiverem jubilosas, nem demasiadamente tristes
quando estiverem deprimidas. Somente podem depender da graça de Deus e viver
pela Sua misericórdia, não pelas suas emoções instáveis.
Embora sejam bem comuns as dificuldades com os
pensamentos e emoções, a dificuldade maior e mais prevalecente é com a vontade.
Nossas emoções são desregradas por que nossa vontade não foi tratada. A raiz
está em nossa vontade. A mesma coisa diz respeito a nossos pensamentos. Talvez
possamos pronunciar com a boca as palavras: "Não se faça a minha vontade,
e, sim, a tua," mas quantas vezes realmente deixamos o Senhor assumir o
controle quando as coisas acontecem? Quanto menos você conhece a si mesmo,
tanto mais facilmente pronuncia tais palavras. Quanto menos iluminado você
está, tanto mais fácil a submissão a Deus parece ser. Aquele que fala com
facilidade barata comprovou que nunca pagou o preço.
Somente quando somos tratados por Deus é que
realmente vemos quão endurecidos somos e quão dispostos a termos nossa própria
opinião. Deus precisa tratar conosco para tornar nossa vontade terna e dócil.
Pessoas resolutas estão convictas de que seus sentimentos, modos e julgamentos
sempre estão certos. Considere como Paulo recebeu esta graça registrada em
Filipenses: "Não confiamos na
carne" (3:3). Nós, também, devemos ser levados por Deus a uma situação
em que não ousamos confiar em nosso próprio julgamento. Deus permitirá que
cometamos engano após engano até compreendermos que este será nosso padrão para
o futuro, também. Realmente precisamos da graça do Senhor. Frequentemente o
Senhor permite que ceifemos consequências sérias dos nossos julgamentos.
Finalmente, você ficará tão aflito com seus
fracassos que dirá: "Temo meus próprios julgamentos assim como temo o fogo
do inferno. Senhor, tendo a cometer enganos. A não ser que Tu sejas
misericordioso comigo, a não ser que Tu me apoies, a não ser que Tu me detenhas
com Tua mão, errarei mais uma vez". Este é o começo da destruição do homem
exterior: quando você já não ousa confiar em si mesmo. Suas opiniões usualmente
lhe vêm facilmente até que você tenha sido tratado por Deus repetidas vezes e tenha
sofrido muitos fracassos. Então, você se rende e diz: "Deus, não ouso
pensar, não ouso decidir." Esta é a disciplina do Espírito Santo: quando todos
os tipos de coisas e todos os tipos de pessoas estão fazendo pressões de todas
as direções.
Não pense que haverá qualquer relaxamento
desta lição! Muitas vezes, o fornecimento da palavra de Deus pode estar em
falta, ou outro meio de graça pode ser insuficiente, mas este meio de graça
especial — a disciplina do Espírito Santo - sempre está conosco. Você pode
dizer que não tem oportunidade de escutar a Sua palavra e ser suprido por ela, mas
isto nunca acontecerá no caso da disciplina do Espírito Santo. Dia após dia,
Ele está planejando amplas oportunidades para você aprender.
Uma vez que você se rende a Deus, esta
disciplina satisfará sua necessidade muito mais do que o fornecimento da Sua
palavra. Não é apenas para os cultos, os habilidosos, os dotados; não, é o
caminho para todo filho de Deus. O fornecimento da palavra de Deus, o poder da
oração, a comunhão dos crentes — nenhuma destas coisas pode substituir a
disciplina do Espírito Santo. É porque você precisa não somente ser edificado;
precisa também ser quebrantado, de ser livrado de todas as numerosas coisas na
sua vida que não podem ser levadas para a eternidade.
A Cruz em Operação
A cruz é mais do que uma doutrina; deve ser
posta em prática. Não pense que o caminho para a humildade é lembrando-nos
constantemente que não devemos ser orgulhosos. Devemos ser feridos uma vez após
outra — ainda que chegue a vinte vezes — até que nos rendamos e já não somos
orgulhosos. Nunca suponhamos que isto se realiza meramente por meio de seguir o
ensino de um determinado irmão. Não, é porque nosso orgulho tem sido quebrado
através do tratamento por Deus.
Mediante a operação da cruz, aprenderemos a
depender da graça de Deus, não da nossa memória. Quer lembremos, quer não,
permanece o fato de que Ele está realizando uma obra que é fidedigna e duradoura.
Anteriormente, o homem exterior e o interior não podiam ficar de mãos dadas;
mas agora o homem exterior espera meigamente, com temor e tremor, diante de
Deus.
Cada um de nós tem necessidade desta
disciplina da parte do Senhor. Ao passarmos em revista a história do nosso
passado, não podemos deixar de ver a mão de Deus lidando com a independência, o
orgulho, e o egoísmo do nosso homem exterior. Descobrimos o significado das
coisas que nos aconteceram.
CAPÍTULO 7
A SEPARAÇÃO E A REVELAÇÃO
Deus deseja não somente quebrantar o homem
exterior, como também separá-lo de tal maneira que o homem interior já não seja
emaranhado nas atividades do homem exterior. Ou podemos simplesmente dizer que
Deus quer dividir nosso espírito da nossa alma.
Quão raro é achar um espírito puro nestes
dias. Geralmente quando nosso espírito aparece, nossa alma aparece também; estão
misturados. Assim, a primeira exigência na obra de Deus é um espírito puro, não
um espírito poderoso. Aqueles que descuidam deste fato, embora sua obra talvez
seja feita com poder, a acharão destruída devido à falta de pureza. Embora possuam
verdadeiramente o poder de Deus, mesmo assim, por causa de ser misto o seu
espírito, estão destruindo aquilo que edificam. Vamos ver se podemos
compreender como isto acontece.
Alguns podem pensar que, enquanto recebem
poder da parte de Deus, todas as suas habilidades naturais serão reconhecidas por
Ele. Não é assim! Quanto melhor conhecemos a Deus, tanto melhor conhecemos e
amamos um espírito puro — pureza esta que não permite nenhuma mistura entre o
exterior e o interior. Aquele cujo homem exterior não foi tratado não pode
esperar que o poder que flui de dentro dele seja puro. Se o poder espiritual é
misturado à medida em que sai da pessoa, ainda que os resultados pareçam bons,
trata-se de um pecado diante de Deus.
Muitos irmãos jovens, mesmo sabendo que o
evangelho é o poder de Deus, ainda insinuam sua própria habilidade, suas piadas,
e seus sentimentos pessoais na sua pregação do evangelho; deste modo, as
pessoas tocam neles e não somente no poder de Deus. Embora eles mesmos talvez
não percebam o fato, outros que são puros de espírito detectarão
instantaneamente tais impurezas. Quão frequentemente nosso zelo na labuta é misturado
com prazer natural. Estamos fazendo a vontade de Deus porque acontece que coincide
com a nossa. Ao ficarmos firmes por Deus estamos meramente expressando nossa
personalidade forte.
Visto que nosso maior problema é com esta
impureza, Deus deve operar em nossa vida de tal maneira que nosso homem exterior
fique quebrantado e nós fiquemos refinados das nossas impurezas. Enquanto Deus
está quebrando nossa casca exterior, dura, também está fazendo a obra do
refinamento. Deste modo, vemos Seu tratamento duplo da nossa pessoa: quebranta
o homem exterior, e divide-o do espírito. O primeiro é realizado
através da disciplina do Espírito Santo, ao passo que o segundo é através da
revelação do Espírito.
A Necessidade de Ser Quebrantado e
Dividido
O homem exterior precisa ser quebrantado para
o espírito ser liberado. Quando, porém, o espírito emergir não deve ser
anuviado pelo homem exterior. Este problema nos leva mais longe do que a
liberação do espírito, porque diz respeito à limpeza ou pureza do espírito.
Se alguém não for esclarecido quanto à
natureza do homem exterior, e, portanto, não for julgado rigorosamente diante de
Deus, seu homem exterior automaticamente sairá juntamente com seu espírito.
Enquanto ele está ministrando diante de Deus, nós podemos perceber que ele
mesmo também se manifestou. Pode exibir a Deus, mas também exibe seu próprio- eu
não julgado. Não é estranho que nossa parte mais destacada, nosso aspecto mais
forte, sempre toca em outras pessoas? Nosso homem exterior não julgado
projetará seu ponto mais forte sobre outras pessoas. Não há nada de imaginativo
nisto. Como você pode esperar que se tornará espiritual no púlpito se não for
espiritual no seu quarto? Você pode projetar-se para dentro da espiritualidade?
Por mais que você se esforce, você fica revelado cada vez que abre sua boca.
Se você realmente deseja ser liberto, Deus
terá de tratar do seu ponto forte de modo básico, não apenas superficialmente. Somente
depois de Ele ter quebrantado você neste aspecto, é que seu espírito poderá ser
liberado sem suas impurezas serem impostas sobre outras pessoas.
A impureza é o maior problema na vida dos
servos de Deus. Frequentemente, tocamos tanto a vida como a morte em nosso
irmão. Achamos a Deus, mas também ao próprio-eu, um espírito meigo, mas também
a teimosia, ao Espírito Santo, mas também a carne — tudo na mesma pessoa.
Quando se levanta para falar, impressiona os outros com um espírito misto, um
espírito que não é limpo. Assim, para Deus usar você como um ministro da Sua
palavra, para você ser Seu porta-voz, você deve buscar Sua graça por meio da
oração: "Ó Deus, faze uma obra em mim, para quebrantar e dividir meu homem
exterior." Senão, o Nome do Senhor sofrerá dano. Você está dando aos
homens aquilo que é de você mesmo enquanto ministra a palavra de Deus. O Nome
do Senhor não sofre porque você tem uma falta de vida, mas, sim, por causa do
seu fluxo de impurezas. A igreja de igual maneira.
Agora, tendo considerado a disciplina do
Espírito Santo, o que se diz acerca da revelação do Espírito Santo? A
disciplina do Espírito Santo pode anteceder Sua revelação, ou pode segui-la.
Não há nenhuma ordem fixa; com alguns, pode começar com Sua disciplina,
noutros, com Sua revelação. Mesmo assim, é certo que a disciplina do Espírito
Santo excede Sua revelação. Estamos nos referindo, naturalmente, à experiência
dos filhos de Deus, e não á doutrina. Para a maioria, parecerá que a disciplina
desempenha um papel muito maior do que a revelação.
Como a Palavra Viva Divide
"Porque
a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de
dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e
medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há
criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as
coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar
contas" (Hb 4: 12, 13).
A primeira coisa a ser notada é que a palavra
de Deus é viva. Sua palavra certamente estará viva quando a virmos assim. Se,
pois, não a achamos viva, simplesmente deixamos de ver a palavra de Deus.
Talvez tenhamos lido as palavras da Bíblia, mas se não tocarmos em algo vivo,
não vemos a palavra de Deus.
João 3: 16 diz: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigénito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida
eterna." Considere como alguém ouve semelhante palavra; ajoelha-se e
ora: "Senhor, Te dou graças e Te louvo, porque Tu me amaste e me salvaste!"
Sabemos imediatamente que este homem tocou a palavra de Deus, porque Sua
palavra ficou sendo viva para ele. Outro homem pode estar assentado ao lado do
primeiro, escutando as mesmíssimas palavras, mas não realmente ouvindo a
palavra de Deus. Não há qualquer resposta viva da parte dele. Há somente uma
conclusão que podemos tirar: visto que a palavra de Deus é viva, aquele que
escuta e não vive, não ouviu a palavra de Deus.
Não somente a palavra de Deus é viva; é também
eficaz. "Viva" indica sua natureza, ao passo que "eficaz"
indica sua capacidade de realizar a obra do homem. A palavra de Deus não pode
voltar vazia; prevalecerá e realizará seu propósito. Não é mera palavra, mas,
sim, a palavra que operará de tal maneira que trará resultados.
O que, pois, a Palavra de Deus faz por nós?
Penetra e divide. É mais cortante do que qualquer espada de dois gumes. Seu
corte é demonstrado nisto: "penetra até ao ponto de dividir alma e
espírito, juntas e medulas." Note a analogia aqui: a espada de dois gumes
contra juntas e medulas, é a Palavra de Deus contra a alma e o espírito. As
juntas e as medulas estão embutidas profundamente no corpo humano. Separar as
juntas é cortar através dos ossos; dividir as medulas é rachar os ossos.
Somente duas coisas são mais difíceis de serem divididas do que as juntas e as
medulas: a alma e o espírito. Nenhuma espada, por mais afiada que seja, pode dividi-los.
Semelhantemente, nós somos totalmente incapazes de distinguir entre o que é
alma e o que é espírito. A Escritura, porém, nos informa que a Palavra viva de
Deus pode fazer este trabalho, porque é mais cortante do que qualquer espada de
dois gumes. A Palavra de Deus é viva, eficaz, e capaz de penetrar e dividir. É
a alma e o espírito do homem que assim são penetrados e divididos.
Talvez alguém levante a seguinte questão:
"Não parece que a Palavra de Deus fez qualquer coisa especial em mim. Frequentemente
ouvi as palavras de Deus e até mesmo recebi revelação, mas, não sei o que é
esta penetração, nem compreendo esta divisão. Pelo que eu saiba, estes dois
processos me são estranhos."
Como a Bíblia responde a esta pergunta para
nós? Diz: "penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e
medulas," mas passa a dizer também que é "apta para discernir os pensamentos
e os propósitos do coração." "Pensamentos" se refere àquilo que
deliberamos em nosso coração e "propósitos" tem referência aos nossos
motivos. Desta maneira, a Palavra de Deus é capaz de discernir tanto o que
pensamos como o que motiva os pensamentos.
Consequentemente, podemos facilmente
identificar aquilo que vem do homem exterior. Confessamos bem levianamente: "Aquilo
foi da alma, porque veio do próprio-eu." Mas não "vemos"
realmente o que é a alma ou o próprio-eu. Depois, certo dia, a misericórdia de
Deus vem a nós, a Sua luz brilha sobre nós, e Sua voz nos anuncia de modo
severo e solene: "O que você frequentemente chama do seu próprio-eu é você mesmo! Você falou acerca da
carne de modo leviano e fácil. Você deve "ver" como Deus odeia isto e
não permitirá que assim continue."
Antes deste "ver", temos conseguido
falar de modo jocoso acerca da carne; mas uma vez tendo sido feridos com a luz,
confessaremos: "Ah! é isto! É acerca disto que tenho falado." Assim,
temos mais do que uma divisão intelectual. É a Palavra de Deus que vem sobre
nós para nos indicar aquilo que pensamos e propomos em nosso coração. Recebemos
uma dupla iluminação: como nossos pensamentos têm sua origem na carne, e como
nossas intenções são inteiramente egoístas.
Para ilustrar este fato, consideremos duas
pessoas não convertidas. Uma delas tem consciência de ser um pecador. Frequentou
muitas reuniões e escutou muitas mensagens sobre o pecado. A pregação clara
levou-o a reconhecer-se pecador. Quando, porém, se refere assim a si mesmo,
pode mencionar o fato com risos, como se realmente não importasse. Outro pecador
escuta a mesma mensagem, e a luz de Deus raia sobre ele. O Espírito o convence
de tal maneira que se prostra no chão e ora: "Oh! é isto que eu sou — um
pecador" Não somente ouviu pela Palavra de Deus que é um pecador, como também
"viu" que esta é a sua verdadeira condição. Condenasse a si mesmo.
Está abatido até ao chão. Iluminado desta maneira, pode confessar seu pecado e
receber a salvação da parte do Senhor. A partir de agora, nunca falará leviana
ou jocosamente acerca do pecado que "viu." Mas o primeiro, que pode descrever-se
jocosamente como pecador, não "viu" e, portanto, não é salvo.
Como você reage hoje a esta mensagem de que
seu homem exterior interfere seriamente com Deus e deve ser quebrantado por
Ele? Se você começa a falar sobre ela de modo livre e fácil, com certeza não
tocou em você. Se, por outro lado, você for iluminado por ela, você dirá:
"Ó Senhor, hoje começo a conhecer a mim mesmo. Até agora, não tinha
reconhecido meu homem exterior." E à medida em que a luz de Deus o cerca,
descobrindo seu homem exterior, você cai no chão, sem poder mais ficar de pé. Imediatamente,
você "vê" o que você é.
Certa vez, você disse que amava ao Senhor,
mas, sob a luz de Deus, descobre que não é assim — é a você mesmo que você
realmente ama. Esta luz realmente divide você e o coloca à parte. Está
internamente separado, não pela sua mentalidade, nem por meros ensinos, mas,
sim, pela luz de Deus. Certa vez, você disse que era zeloso pelo Senhor, mas
agora a luz de Deus demonstra que seu zelo era inteiramente movido pela sua própria
carne e sangue. Você pensava que amava os pecadores enquanto pregava o
evangelho, mas agora veio a luz, e você descobre que sua pregação do evangelho
tem sua origem principalmente do seu amor à atividade, do seu deleite em falar,
da sua inclinação natural. Quanto mais profundamente esta luz divina brilha,
tanto mais são revelados os pensamentos e propósitos do seu coração. Certa vez,
você supunha que seus propósitos e intenções eram do Senhor, mas nesta luz
penetrante, você sabe que são inteiramente de você mesmo. Esta luz humilha você
diante do Senhor.
Consequentemente, aquilo que supúnhamos ser do
Senhor revela que é de nós mesmos. Embora tínhamos proclamado que nossas
mensagens eram dadas pelo Senhor, agora a luz do céu nos compele a confessar
que o Senhor não nos falou, ou, se falou, quão pouco Ele disse. Quão grande
porção da obra do Senhor, assim-chamada, acaba sendo atividades carnais! Este
desvendar da natureza verdadeira das coisas, ilumina-nos para termos o conhecimento
verdadeiro daquilo que é de nós mesmos e daquilo que é do Senhor, quanto
vem da alma e quanto do espírito. Quão maravilhoso seria se
pudéssemos anunciar: a Sua luz brilhou, nosso espírito e nossa alma estão
divididos, e os pensamentos e propósitos do nosso coração são discernidos.
Vocês que tiveram experiência disto sabem que
é além de mero ensino. Todos os esforços para distinguir o que é do próprio-eu
e o que é do Senhor, para separar as coisas que são do homem exterior daquelas
que são do homem interior — até ao ponto de alistá-las item por item e depois
decorá-las — revelaram-se como nada mais do que esforços desperdiçados. Você
continua a comportar-se exatamente como de costume, pois não pode ver-se livre
do seu homem exterior.
Talvez você possa condenar a carne, talvez se
orgulhe de poder identificar tal e tal coisa como pertencente à carne, mas ainda
não está liberto dela.
A liberação vem da luz de Deus. Quando aquela
luz brilhar, você imediatamente verá quão superficial e carnal foi sua negação
da carne, quão natural foi sua crítica daquilo que é natural. Mas agora o Senhor
desnudou diante dos seus olhos os pensamentos e os propósitos do seu coração.
Você cai prostrado diante dEle e diz: "Ó Senhor! Agora sei que estas coisas
realmente são do meu homem exterior. Somente esta luz pode realmente dividir
meu exterior do meu interior."
Assim acontece que até mesmo nossa negação do
nome exterior e nossa firme resolução no sentido de rejeitá-lo, em nada
ajudará. Sim, até mesmo a própria confissão do nosso pecado dá em nada, e nossas
lágrimas de arrependimento precisam ser lavadas no sangue. Quanta estultícia,
imaginarmos que poderíamos desmascarar o nosso pecado! Somente na Sua Luz é que
"veremos" e seremos desmascarados. Deve ser Sua obra pelo Espírito,
não nossos esforços da alma – ou seja, não da nossa própria mente. Este é o
único caminho de Deus.
É por isso que Deus diz: "A minha Palavra
é viva e eficaz. A minha espada é a mais afiada de todas. Quando a minha Palavra
vem ao homem, é capaz de dividir a alma e o espírito, assim como uma espada de
dois gumes pode dividir as juntas e as medulas."
Como é que ela divide'.' Por meio de revelar
os pensamentos e os propósitos do coração. Nós não conhecemos nosso próprio
coração. Amados, somente aqueles que estão na luz, conhecem seu próprio coração.
Ninguém mais o conhece, ninguém mesmo! Quando, porém, vier a palavra de Deus, nós,
"vemos." Somos desmascarados como sendo egocêntricos, procurando
apenas a gratificação, a glória, a proeminência e o prestígio para nós mesmo.
Quão bendita é aquela luz que nos leva a cair aos Seus pés.
O Que É uma
Revelação?
A Escritura que estamos considerando continua
assim: "E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário,
todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar
contas." Aqui, o Senhor nos dá o padrão ou o critério para a divisão. O
que se constitui em revelação pelo Espírito Santo? Quanto devemos ver antes de
se tratar de uma revelação? Hb 4:13 pode nos ajudar a responder. A revelação
nos capacita a ver o que Deus vê. Todas as coisas estão descobertas e
patentes aos Seus olhos. Qualquer venda está em nossos próprios olhos, não nos
de Deus. Quando Deus abre nossos olhos a fim de que saibamos o propósito do
nosso coração e nosso pensamento mais profundo na medida em que Ele mesmo nos
conhece — esta é revelação. Assim como somos descobertos e patentes diante dEle,
assim o somos diante de nós mesmos quando recebemos a revelação. Esta é a
revelação: termos permissão de ver o que nosso Senhor vê.
Se Deus nos for misericordioso e nos outorgar
até mesmo uma pequena medida da revelação, de modo que possamos nos ver como
somos vistos por Ele, seremos imediatamente prostrados em terra. Não precisamos
fazer esforço para sermos humildes. Aqueles que vivem na luz não podem ser
orgulhosos. É somente enquanto vivemos nas trevas que podemos ser orgulhosos. Fora
da luz de Deus, os homens podem ser arrogantes e altivos; mas sob a revelação
da luz somente podem prostrar-se diante dEle.
Enquanto você avançar, fica sendo cada vez
mais evidente que é extremamente difícil explicar esta questão de dividir o
natural do espiritual, o exterior do interior. Somente à medida em que há
revelação é que o problema é solucionado. Seja para o que você for capacitado a
discernir entre os pensamentos e propósitos do seu coração, pode ter certeza de
que sua alma e seu espírito estão sendo divididos.
Se você desejar ser usado por Deus, mais cedo
ou mais tarde você deixará a luz brilhar sobre você. Você se voltará a Ele e
dirá: "Ó Deus, sou completamente indigno de confiança. Não sei a quem
estou acusando, nem qual pecado estou confessando. Somente na Tua luz poderei
saber." Antes de você receber iluminação, você pode dizer que é um
pecador, mas falta-lhe a contrição do pecador; talvez você pense que odeia a si
mesmo, mas não tem nenhum senso real de aborrecimento de si; talvez você diga
que nega a si mesmo, mas falta o senso de abnegação. Uma vez que a luz vem, a
cobertura da superfície é arrancada, e aquilo que é "real" ou
"original" é revelado. Que desvendamento, ver que somente amo a mim
mesmo; ver que estou logrado, e enganando o Senhor; ver que não amo a Ele! Esta
luz mostra a você o que você é e o que você tem feito. Doravante, você terá o
conhecimento interior daquilo que pertence ao próprio-eu. Sem este julgamento pela
luz, você nem sequer pode imitar, mas agora, à medida em que a luz de Deus
julga, o espírito e a alma são divididos; a imitação é impossível.
O que o Senhor faz é penetrar para dentro do
nosso homem interior com uma luz intensa.
Pode acontecer enquanto estamos escutando uma mensagem, ou orando sozinhos, ou tendo
comunhão com outros, ou até mesmo andando sozinhos. Esta luz incomparável nos
mostra quanto pertence a nós mesmos. Revela-nos que quase nada que procede de
nós mesmos vem da parte do Senhor. Na conversação, nas atividades, nas obras,
no zelo, na pregação, na ajuda aos outros - em todos os campos da vida, nosso
próprio-eu permeia tudo. Uma vez, porém, que nosso próprio-eu oculto é trazido
â luz, nossa condenação do homem exterior será espontânea. Nas ocasiões
subsequentes, sempre que ele se expressar, imediatamente nos lastimaremos disto
e o julgaremos. É somente depois de tal iluminação que somos capazes de dividir
o espírito da alma. Doravante, viveremos diante do Senhor com nosso espírito
liberado. É puro agora, e não oferece dificuldade alguma ao Senhor.
Desta maneira, a divisão do espírito e da alma
depende da iluminação; ou seja: podemos ver como Deus vê. Exatamente o que Deus
vê? Vê aquilo que nós não vemos. Somos cegos àquilo que é de nós mesmos, e
pensamos que é de Deus quando realmente não é. O que professamos ser bom, agora
condenamos segundo aquela luz. Aquilo que considerávamos certo, agora o
rejeitamos. Aquilo que passava por espiritual, agora reconhecemos como sendo da
alma. E aquilo que pensávamos que era de Deus, agora reconhecemos como sendo do
próprio eu. Confessamos: "Senhor! Agora chego a conhecer a mim mesmo.
Estive cego durante vinte ou trinta anos, e não o percebia. Não tenho visto
conforme Tu tens visto."
Semelhante visão liberta você do peso morto do
próprio- eu. Ver é o tratamento dEle. A Palavra de Deus é eficaz, porque o
ilumina ao ponto de poder despir o homem exterior. Não é que depois de você ter
ouvido a Palavra de Deus que paulatinamente se transforma, como se a visão
fosse um passo, e o despojar, outro passo. Não: a própria iluminação é um
despojar; as duas coisas ocorrem simultaneamente. Tão logo a luz atinge, a
carne está morta. Nenhuma carne pode viver naquela luz. No momento em que
alguém entra na luz, prostra-se. A luz secou a sua carne. Amados, isto é
eficácia. Realmente, a Palavra passa a esperar que você produza. A Sua palavra
é eficaz na sua vida. Que o Senhor abra os nossos olhos para vermos a
importância da disciplina do Espírito Santo e Sua revelação. Estes dois dão as
mãos para tratarem de modo eficaz em nosso homem exterior. Dependamos de Deus
para recebermos Sua graça que nos capacitará a colocar-nos sob Sua luz e sermos
iluminados ao ponto de nos curvar diante dEle, reconhecendo: "Senhor, quão
estulto e cego tenho sido todos estes anos, ao pensar erroneamente que aquilo
que fluía de mim vinha de Ti. Senhor, sê misericordioso comigo!"
CAPÍTULO 8
QUE IMPRESSÃO DAMOS?
Para fazermos a obra do Senhor não depende
tanto das nossas palavras ou ações, mas, sim, daquilo que vem saindo de
nós. Não temos capacidade de edificar os outros se dizemos uma coisa e emitimos
da nossa vida outra, se encenamos uma maneira de viver e realmente vivemos de
outra. Aquilo que emana de nós é uma consideração importante.
Frequentemente dizemos que nossa impressão de
certa pessoa é boa ou má. Como recebemos semelhante impressão? Não é somente
das suas palavras, nem sequer das suas ações. Alguma coisa misteriosa expressa-se
enquanto ele está falando ou agindo. É isto que nos dá a impressão.
O que os outros sentem em nós é nossa característica
mais destacada. Se nossa mente nunca foi tratada, e é indisciplinada, naturalmente
usaremos nossa mente para entrar em contato com as pessoas, e elas ficarão
impressionadas com seu vigor. Ou se possuímos uma afeição exagerada, se somos
demasiadamente calorosos ou frios, outras pessoas tomarão nota disto na sua
impressão de nós. Seja qual for nossa característica mais forte,
invariavelmente se destacará e impressionará outras pessoas. Talvez possamos
controlar nossas palavras ou nossas ações, mas não podemos refrear aquilo que
expressa nossa natureza. Não podemos deixar de revelar aquilo que somos.
2 Reis 4, narra como a sunamita recebia
Eliseu. "Certo dia passou Eliseu por Suném, onde se achava uma mulher
rica, a qual o constrangeu a comer pão. Daí todas as vezes que passava por lá
entrava para comer. Ela disse a seu marido: Vejo que este que passa sempre por
nós, é santo homem de Deus." Note que Eliseu não pregou sermão algum, nem
operou milagre algum. Meramente fazia uma rápida visita e comia, sempre que
passava por aquele caminho. Pelo modo dele comer, a mulher o reconhecia como
sendo um santo homem de Deus. Esta era a impressão que Eliseu dava aos outros.
Devemos perguntar a nós mesmos: qual é a
impressão que damos aos outros? Quantas vezes enfatizamos a necessidade para
nosso homem exterior ser quebrantado. Se este quebrantamento não for realizado,
outras pessoas encontram o impacto do nosso homem exterior. Sempre que estamos na
presença delas, sentem-se constrangidas por nosso amor próprio, ou por nosso
orgulho, ou obstinação, ou habilidade, ou eloquência. Talvez a impressão que deixamos
seja favorável, mas Deus está sendo satisfeito? Semelhante impressão servirá à
necessidade da igreja? Se Deus não está satisfeito, e a igreja não está sendo
ajudada, qualquer impressão que deixamos é em vão.
Amados, a plena intenção de Deus requer que
nosso espírito seja liberado. É imperativo para o crescimento da igreja. Como é
urgente, portanto, que nosso homem exterior seja quebrantado! Sem este
quebrantamento, nosso espírito não poderá emergir e a impressão que deixaremos
com outras pessoas não será espiritual.
Suponhamos que um irmão está falando sobre o
Espírito Santo. Embora seu assunto seja o Espírito Santo, suas palavras, suas
atitudes, e suas ilustrações estão cheias de si mesmo. Talvez sem saber por
que, o auditório sofre interiormente enquanto o escuta. Sua boca está cheia do
Espírito Santo, mas a impressão que deixa com seus ouvintes é dele mesmo. Qual
é o valor espiritual de semelhante conversa vazia? Nenhum.
Ao invés de ressaltar o ensino, coloquemos
mais ênfase sobre aquilo que sai de nós. Deus não está nos observando para ver
se nosso ensino se torna mais profundo; quer lidar conosco como indivíduos. Se
nossa natureza não for corretamente tratada, poderemos emitir o assim chamado
ensino espiritual, mas não há qualquer comunicação espiritual. Como é trágico
quando meramente impressionamos o homem exterior mas não transmitimos nada de
impressão viva ao homem interior!
Uma vez após outra, Deus dispõe nossas
circunstâncias para quebrantar-nos em nosso ponto forte. Você poderá ser ferido
uma vez, duas vezes, mas ainda o terceiro golpe terá de vir. Deus não soltará você.
Não deterá Sua mão até que tenha quebrantado aquela característica de destaque em
você.
Aquilo que o Espírito Santo realiza quando
estamos sendo disciplinados é totalmente diferente daquilo que acontece quando
estamos ouvindo uma mensagem. Uma mensagem que ouvimos pode frequentemente
ficar em nossa mente por vários meses, possivelmente até durante anos, antes da
sua verdade tornar-se operacional em nós. Deste modo, o ouvir frequentemente
antecede o verdadeiro entrar na vida. Através da disciplina do Espírito Santo,
porém, percebemos a verdade mais rapidamente, e assim a possuímos. Como é estranho
que captamos mero conhecimento através de uma mensagem muito mais rapidamente
do que aprendemos a realidade através da disciplina! Uma vez que ouvimos, nos lembramos.
Podemos, porém, ser disciplinados dez vezes e ainda ficar querendo saber porque.
O dia em que a disciplina realiza seu propósito é o dia em que você realmente
"vê" a verdade e entra na sua realidade. Assim, a obra do Espírito Santo
é demoli-lo de um lado, e reedificá-lo do outro lado. Assim, seu coração dirá:
"Graças ao Senhor! Agora sei que Sua mão que estava sobre mim durante
estes últimos cinco ou dez anos tem sido precisamente para quebrantar este
ponto forte em mim."
A Obra Notável de Morrer Através da Dominação
Tendo considerado a operação disciplinar do
Espírito Santo, agora vejamos como Ele emprega outros meios para lidar com
nosso homem exterior. Além da disciplina, haverá a iluminação. Às vezes estas duas
são usadas simultaneamente, às vezes alternadamente. Às vezes a disciplina é
demonstrada em circunstâncias que visam o nivelamento da nossa característica
destacada: noutras vezes, Deus graciosamente brilha sobre nós para nos
iluminar. A carne, conforme sabemos, jaz oculta nas trevas. Permite-se a
existência de muitas obras da carne porque nós não as reconhecemos como tais.
Uma vez que a Sua luz nos revela a carne, trememos, e não ousamos movimentar-nos.
Observamos especialmente este fato em tempos
em que a igreja está rica na palavra de Deus. Quando o ministério da Sua
palavra é forte, e não há falta de ministério profético, a luz aparece, clara e
forte. Em tal luz, você chega a reconhecer que até mesmo a condenação do seu
orgulho é em si mesma orgulho. Na realidade, sua própria maneira de falar
contra seu orgulho é jactanciosa. Deste modo, tão logo que você vê o orgulho na
luz, você certamente dirá: "Ai de mim! Então isto é orgulho — quão
repugnante e impuro ele é!" O orgulho visto à luz da revelação é completamente
diferente do orgulho acerca do qual se fala tão levianamente. A iluminação
desmascara a condição verdadeira. Imediatamente raia sobre você que é dez mil
vezes pior do que quaisquer das suas noções preconcebidas acerca de si mesmo.
No mesmo momento, seu orgulho, seu próprio-eu, e sua carne murcham de tudo e
morrem sem esperança alguma da sobrevivência.
Tudo quanto é revelado "na luz" é
morto por ela. Isto é muito maravilhoso. Não somos primeiramente iluminados para
então, no decorrer do tempo, paulatinamente sermos trazidos para a morte. Pelo
contrário, caímos instantaneamente diante da vinda da luz. À medida em que o
Espírito Santo revela, recebemos nosso tratamento. A revelação, portanto, inclui
tanto o ver quanto o morrer. É o modo sem igual de Deus tratar. Uma vez que a
impureza é realmente exposta, não poderá permanecer. Logo, a luz tanto revela
quanto mata.
Esta ação de ser morto pela luz é uma das
experiências cristãs mais necessárias. Paulo não foi correndo para a beira da
estrada para ajoelhar-se quando a luz brilhou sobre ele. Caiu em terra. Embora
fosse naturalmente capaz e autoconfiante, reagiu à luz ao cair, um pouco
perplexo, mas intimamente desmascarado. Quão eficaz era esta luz que prostrou-o
em terra! Notemos que isto aconteceu de uma só vez. Poderíamos supor que Deus
primeiramente ilumina nosso entendimento e depois nos deixa para calcular tudo.
Este não é o modo de Deus agir. Deus sempre nos mostra quão odiosos e poluídos
somos, e nossa resposta imediata é: "Ai de mim! Como sou miserável — tão
impuro, tão desprezível!" Se Deus revela nosso verdadeiro eu, caímos como
mortos. Uma vez que uma pessoa orgulhosa tenha sido iluminada, não poderá sequer
fazer uma tentativa de ser orgulhosa — nunca mais! O efeito daquela iluminação
deixará sua marca sobre ela durante todos os seus dias.
Do outro lado, este tempo de iluminação também
é o tempo para crer — não para pedir, mas para curvar-se até ao chão. Deus
segue o mesmo princípio ao salvar-nos como faz ao operar em nós mais tarde.
Quando o brilho do evangelho resplandece em nós, não oramos: "Senhor,
rogo-Te, sé meu Salvador." Orar assim, até mesmo por dias a fio, não
traria a certeza da salvação. Dizemos simplesmente: "Senhor, eu Te recebo
como meu Salvador." Imediatamente, a salvação ocorre! De modo semelhante,
na operação subsequente de Deus, tão logo que a luz vem sobre nós, devemos
imediatamente prostrar-nos sob Sua luz e dizer ao Senhor: "Senhor, aceito
a Tua sentença. Concordo com Teu julgamento." Isto nos preparará para mais
luz.
Naquela hora do desvendamento, até mesmo as
ações nobres — realizadas em nome dEle e por amor a Ele — de alguma maneira
perderão seu brilho. Em todo propósito sublime você perceberá a inclinação mais
vil. Aquilo que você considerava como sendo inteiramente para Deus, agora
parece crivado com o próprio-eu. Ai! O próprio-eu parece permear todo vestígio
do seu ser, furtando a Deus a Sua glória.
A nós tem parecido que não há profundidade que
o próprio homem não possa sondar! Mesmo assim, é necessária a revelação de Deus
para desmascarar a condição real do homem. Deus não parará até que nos desnude
a fim de que vejamos a nós mesmos. De início, somente Ele sabe, porque sempre
estamos descobertos e patentes diante dEle. Mas uma vez que Deus nos revelou os
pensamentos e propósitos do nosso coração, então estamos descobertos diante de
nós mesmos. Como voltaremos a erguer nossa cabeça? A nossa própria brandura
fica sendo coisa do passado. Embora tenhamos pensado que éramos melhor do que
outras pessoas, agora sabemos o que realmente somos, e temos vergonha de nos
mostrar. Procuramos em vão uma palavra adequada para descrever nossa impureza e
nossa condição desprezível. Nossa vergonha pesa sobre nós, como se carregássemos
a vergonha do mundo inteiro. Como Jó, caímos diante do Senhor e nos
arrependemos de nós mesmos: "Por isso me abomino, e me arrependo no pó e
na cinza." Semelhante iluminação, semelhante aborrecimento de si mesmo,
semelhante vergonha e humilhação, semelhante arrependimento, libertam-nos da
escravidão de longos anos. Quando o Senhor ilumina, liberta. A iluminação é a
libertação, e o ver é a liberdade. Somente assim é que nossa carne cessa de
operar, e nossa casca externa é quebrantada.
A Disciplina Comparada com a Revelação
Passemos agora a comparar a disciplina e a
revelação do Espírito Santo. A disciplina do Espírito Santo geralmente é um
processo mais lento, repetida uma vez após outra, talvez durante anos até que a
questão em pauta seja finalmente tratada. (Aliás, esta disciplina do Espírito
Santo frequentemente existe sem qualquer fornecimento de ministério). Não é
assim com a revelação do Espírito Santo. Esta frequentemente vem rapidamente,
dentro de uns poucos dias ou, possivelmente, uns poucos minutos. Sob a luz de
Deus você verá em pouquíssimo tempo sua condição verdadeira e quão inútil você
é. Depois, também, a revelação frequentemente vem através do suprimento da Palavra
de Deus. É por isso que a revelação do Espírito Santo se multiplica quando a
igreja está forte e o ministério da Palavra de Deus é rico.
Ninguém, no entanto, deve imaginar que, na
ausência de semelhante ministério rico e de semelhante revelação transbordante,
então está livre para viver de acordo com seu homem exterior. É importante
lembrar-se de que a disciplina do Espírito Santo ainda está operante. Embora
alguém esteja privado do contato com outros crentes por muitos anos, a presença
do Espírito Santo com ele é uma garantia de que possa chegar a uma boa condição
espiritual, posto que é responsivo à disciplina do Espírito. Embora a fraqueza
da igreja possa ter como resultado que alguns membros tenham falta do
suprimento da palavra de Deus, somente podem culpar a si mesmos se deixam de
perceber o valor da disciplina do Espírito. Além disto, o fracasso deles não
quer dizer que o Espírito Santo não os disciplinou, nem os disciplina. Pelo
contrário, significa que os anos de disciplina não produziram efeito algum.
Embora o Senhor tenha ferido uma vez após outra, permaneceram ignorantes do
significado disto. Como um cavalo ou mula, teimosos e destituídos de
entendimento, parece que não sondam a mente do Senhor — mesmo após dez anos de
tratamento. Quão lastimáveis são os tais! Somente podemos tirar a seguinte
conclusão: a disciplina é abundante em muitas vidas, mas reconhecer a mão do
Senhor naquela disciplina é realmente raro.
Quão frequentemente, quando o Senhor trata
conosco, vemos somente a mão do homem. Isto é inteiramente errado. Como o
Salmista, nossa atitude deve ser: "Emudeço,
não abro os meus lábios, porque tu fizeste isso" (Salmo 39:9). Devemos
lembrar-nos de que é Deus quem está tratando conosco, e não nosso irmão, nossa
irmã, ou qualquer outra pessoa.
O Senhor nos tem disciplinado durante anos,
mas, ao invés de reconhecer Sua mão, culpamos outras pessoas ou o destino pelos
acontecimentos? Que sejamos lembrados de que tudo é medido por Deus para
nós. Ele predeterminou seu tempo, seus limites, e sua força, a fim de quebrantar
nossa característica destacada que é de difícil trato. Oxalá tenhamos a graça suficiente
para reconhecer o significado da Sua mão ao procurar despedaçar este homem exterior.
Até que isto aconteça, as pessoas somente encontrarão aquele próprio-eu
imperioso quando entram em contato conosco. Até que o quebrantamento seja
levado a efeito, nosso espírito não pode fluir livremente em direção a elas.
Oremos sinceramente no sentido de a igreja vir
a conhecer a Deus como nunca antes, a fim de que os filhos de Deus sejam cada
vez mais frutíferos para Ele. O Senhor pretende trazer-nos para uma posição em
que não somente a mensagem do evangelho e nosso ministério do ensino sejam
correios, como também estejamos certos. A questão é: Deus pode ser plenamente liberado
através do nosso espírito? Quando o espírito é liberado, supre as necessidades do
mundo. Nenhuma obra é mais importante ou mais eficiente do que esta, e nada
pode substituí-la. O Senhor não Se preocupa tanto com seus ensinos ou sermões
quanto com a impressão que você dá. O que é que vem de você? Esta é a vara da medida
final. Você impressiona as pessoas com você mesmo ou com o Senhor? Você deixa
as pessoas tocarem seu ensino ou seu Senhor? Isto é realmente vital, pois
determina o valor de toda a sua labuta e obra.
Amado, tenha certeza de que o Senhor presta muito
mais atenção àquilo que vem da sua vida interior do que àquilo que sai da sua
boca. Não se esqueça de que em todo contato que você fizer com outra pessoa,
algo sai de dentro de você. Ou é você, ou é Deus, que flui, ou seu homem
exterior, ou o espírito. Finalmente, perguntaria: Quando você fica em pé diante
das pessoas, o que se manifesta? E a fim de não darmos uma resposta
demasiadamente apressada, lembremo-nos de que esta pergunta básica somente
poderá ser corretamente respondida "na Sua luz."
CAPÍTULO 9
AMEIGUICE NO QUEBRANTAMENTO
O método de Deus quebrantar nosso homem
exterior varia de acordo com o alvo. Expliquemos o alvo da seguinte maneira: com
alguns, é seu amor-próprio; com outros, é seu orgulho. Há, também, aqueles cuja
autoconfiança e habilidade precisam ser destruídas; tais pessoas se acharão em
um predicamento após outro, derrotadas a cada passo, até que aprendam a dizer:
"Não vivemos na sabedoria da carne, mas, sim, na graça de Deus." Além
disto, aqueles cuja característica destacada e a subjetividade se acharão em
circunstâncias peculiares à sua necessidade. E, além disto, há aqueles que
sempre estão borbulhando com ideias e opiniões. Embora a Bíblia afirma:
"Há coisa que seja maravilhosa demais para o Senhor?" alguns irmãos
sustentam que nada é difícil demais para eles! Jactam-se de que podem fazer
tudo, mas, estranhamente, fracassam em todos os empreendimentos. As coisas que
pareciam tão fáceis desmontam-se nas suas mãos. Perplexos, perguntam "Por
que?" É esta a maneira de o Espírito Santo tratar com eles a fim de atingir
o alvo necessário. Tais ilustrações mostram como o alvo do Espírito varia com o
respectivo indivíduo.
Há, também, uma variação no ritmo dos
tratamentos pelo Espírito Santo. Às vezes, os golpes podem suceder-se um após
outro sem folga; ou pode haver períodos de calmaria. Mas Deus disciplina todos
aqueles a quem ama. Desta maneira, os filhos de Deus têm feridas infligidas
pelo Espírito Santo. Embora a aflição possa variar, as consequências são as mesmas:
o próprio-eu por dentro está ferido. Assim Deus toca em nosso amor-próprio, nosso
orgulho, nossa habilidade ou nossa subjetividade, seja qual destes se constitui
em Seu alvo exterior. Pretende com cada tiro contra o alvo enfraquecer-nos ainda
mais, até que venha o dia em que somos esmagados e maleáveis nas Suas mios.
Quer o tratamento toque nossa afeição, quer nossos pensamentos, o resultado
final é produzir uma vontade quebrantada. Todos nós somos naturalmente obstinados.
Esta vontade teimosa é apoiada por nossos pensamentos, nosso amor-próprio, nossa
afeição, ou nossa habilidade. Este fato explica as variações nos tratos do
Espírito Santo conosco. Finalmente, é nossa vontade que Deus quer atingir, pois
é ela que representa nosso próprio-eu.
Deste modo, uma característica em comum
destaca os que foram iluminados e disciplinados — tornam-se meigos. A meiguice
é o sinal do quebrantamento. Todos aqueles que são quebrantados por Deus são
caracterizados pela meiguice. Anteriormente, podíamos nos dar ao luxo de sermos
obstinados, porque éramos como uma casa bem apoiada em muitos pilares. À medida
em que Deus remove os pilares, um após outro, a casa forçosamente há de ruir.
Quando os apoios externos são demolidos, o próprio-eu não pode deixar de cair.
Devemos, no entanto, aprender a reconhecer a
verdadeira meiguice. Não seja enganado ao ponto de pensar que uma voz que fala
suavemente indica uma vontade mansa. Muitas vezes, uma vontade de ferro se
esconde por detrás da voz mais suave. A teimosia é uma questão de caráter, não
da voz. Alguns que aparentam ser mais mansos do que outros são — diante de Deus
— igualmente obstinados e egoístas. Para os tais, somente pode haver a severidade
do Seu tratamento até que não ousem agir com presunção. Pelo desígnio de Deus,
os tratamentos que parecem ser externos tocam-nos até o âmago; nunca poderemos
levantar nossa cabeça nestas questões específicas. É decidido irrevogavelmente
que nestas questões não podemos desobedecer ao Senhor; não ousamos insistir em
nossa opinião. O temor da mão do Senhor nos refreia. É o temor de Deus que nos torna
meigos. Quanto mais somos quebrantados através dos tratamentos de Deus, tanto
mais meigos nos tornamos. Ver a verdadeira meiguice é contemplar o
quebrantamento interior.
Ilustramos o fato da seguinte maneira: Depois
de entrar em contato com certo irmão, você pode sentir que ele verdadeiramente tem
dons, mas, mesmo assim, achar que ele não foi quebrantado. Muitos são assim —
dotados, porém, intatos. Sua falta de quebrantamento pode ser facilmente
detectada. Tão logo que você se encontra com eles, você sente um meio tom neles
— você pode sentir sua teima. Não é assim com quem é quebrantado; há uma
meiguice operada pelo Espírito. Seja em que ponto a pessoa foi tocada por Deus,
ali ela não ousa jactar-se. Aprendeu a temer a Deus neste ponto, e é
transformada em meiguice.
Note, por favor, como a Escritura usa
metáforas diferentes para descrever o Espírito Santo. Ele é como o fogo e como a
água. O fogo fala do Seu poder, a água da Sua purificação. Mas no que diz
respeito ao Seu caráter, diz-se que Ele é como uma pomba, meiga e mansa. O
Espírito de Deus incorporará Sua natureza em nós, pouco a pouco, até que nós,
também, sejamos caracterizados pela pomba. A meiguice, nascida do temor de
Deus, é o sinal do Espírito Santo para o quebrantamento.
Considerando as Qualidades da Meiguice
Uma pessoa quebrantada pelo Espírito
naturalmente possui a meiguice. Seus contatos com as pessoas já não são marcados
por aquela teima, dureza e aspereza que são as marcas registradas de um homem não
quebrantado. Já foi trazido ao ponto em que sua atitude é tão meiga quanto sua
voz é mansa. O temor a Deus no seu coração naturalmente acha expressão nas suas
palavras e nas suas maneiras.
(1) Abordável
Há várias qualidades que caracterizam uma
pessoa que é meiga: ela é abordável — é tão fácil ter contato com ela, falar
com ela, e fazer perguntas a ela. Confessa prontamente os seus pecados e
derrama lágrimas livremente. Para alguns, é tão difícil derramar lágrimas. Não
é que haja qualquer valor especial nas lágrimas, mas naquele cujo pensamento,
vontade e emoção foram tratados por Deus, as lágrimas frequentemente denotam
sua disposição para ver e reconhecer sua falta. É fácil conversar com ele,
porque sua casca exterior foi quebrada. Aberto às opiniões dos outros, dá as
boas-vindas às instruções, e, nesta posição nova, pode ser edificado em todas
as coisas.
(2) Altamente
Sensível
Além disso, aquele que é meigo está alerta ao
seu meio ambiente, visto que seu espírito pode facilmente sair e tocar o
espírito em cada um dos seus irmãos. O mínimo movimento no espírito de outra
pessoa não passa desapercebido por ele. Quase imediatamente ele pode perceber a
verdadeira significação de uma situação — seja ela certa ou errada. Suas ações
são bem-consideradas, nem magoará os sentimentos dos outros com falta de
consideração.
Frequentemente persistimos em fazer coisas
que, no espírito de outras pessoas já foram condenadas. Nosso homem exterior
não é quebrantado. Outros sentem este fato, mas nós, não. Considere como isto
pode ocorrer nas reuniões de oração, quando os irmãos e as irmãs podem sentir
repugnância das nossas orações. Mesmo assim, não cessamos de falar
monotonamente. Os espíritos dos demais irmãos clamam: "Parem de orar,"
Mas permanecemos insensíveis. Não há correspondência aos sentimentos dos outros.
Não é assim com aquele cujo homem exterior foi quebrantado. Porque o Espírito
tocou naturalmente e operou uma profunda sensibilidade e pode ser tocado também
pelo espírito de outros. Tal pessoa não ficará embotada diante das reações dos
outros.
(3) Pronto para
uma Vida em Conjunto
Somente estes quebrantados sabem o que é o
corpo de Cristo. Sem a meiguice, dificilmente estariam prontos para participar
da vida no corpo. Começam a tocar o espírito do corpo, até mesmo os sentimentos
dos outros membros. Se alguém não tem este senso do corpo, é como um membro
falso do corpo, igual a uma mão artificial de Cristo, que pode movimentar-se
com o corpo físico, mas que não tem nenhuma sensação. O corpo inteiro sentiu
este fato, menos ele. Nem pode receber com meiguice a instrução ou a correção.
Um quebrantado, no entanto, pode tocar a consciência da igreja e perceber o seu
sentimento, pois seu espírito está aberto ao espírito da igreja para receber
dela qualquer comunicação.
Quão preciosa é esta sensibilidade! Sempre que
fazemos qualquer coisa errada, imediatamente a sentimos. Embora não estejamos
livres de fazer coisas erradas, mesmo assim, possuímos uma faculdade que
rapidamente nos aferroa. Os irmãos e as irmãs sabem que você está errado, mas
mesmo antes de abrirem a boca você é trazido de volta ao seu bom-senso pelo mero
contato com eles. Você tocou o espírito deles, e isto lhe indica se aprovam ou
desaprovam. Torna-se evidente que a meiguice, que é o fruto do quebrantamento,
é uma exigência básica, e que é impossível sem a vida no corpo.
O corpo de Cristo vive da mesma maneira que
nosso corpo físico. Não exige a conclamação de um concílio geral para chegar a
decisões. Nem há necessidade de discussões prolongadas; todos os membros naturalmente
possuem um sentimento em comum e aquele sentimento expressa a mente do corpo.
E, além disto, também é a expressão da mente da Cabeça. Assim, a mente da
Cabeça é conhecida através daquela do corpo. Depois de nosso homem exterior ter
sido quebrantado, começamos a viver naquela consciência corpórea como membros
correlatos do Seu corpo, e somos facilmente corrigidos.
(4) Facilmente
Edificado
A maior vantagem do quebrantamento, no
entanto, não está em ter nosso erro corrigido, mas, sim, em capacitar-nos a
receber o suprimento da totalidade do corpo. Nosso espírito então é liberado e
aberto para receber a ajuda espiritual de qualquer parte do corpo. Quem não for
quebrantado dificilmente, poderá ser ajudado. Suponhamos, por exemplo, um irmão
muito inteligente porém, não quebrantado. Pode vir às reuniões, mas não é
tocado. A não ser que encontre alguém cuja mente é mais aguçada do que a dele,
não será ajudado. Analisará os pensamentos do pregador e os rejeitará como sendo
inúteis e sem sentido. Meses e anos podem passar dessa forma sem ele ser
tocado. Está fechado pela parede da sua mente e parece que somente poderá ser
ajudado através da sua mente. Nesta condição, não pode receber a edificação espiritual.
Se, porém, o Senhor entrasse e despedaçasse esta parede, mostrando-lhe a
futilidade dos seus próprios pensamentos, ele ficará atento como uma criança
àquilo que os outros dizem. Já não desprezará pessoas que parecem estar abaixo
das suas habilidades ou capacidades.
Ao escutar uma mensagem, fará uso do seu
espírito para entrar em contato com o espírito do pregador, ao invés de
focalizar sua atenção na pronúncia das palavras ou na apresentação da doutrina.
Quando o espírito do pregador é liberado com uma palavra específica da parte do
Senhor, o espírito deste ouvinte é refrigerado e edificado. Se o espírito de alguém
estiver livre e aberto, recebe ajuda sempre que o espírito do seu irmão flui.
Lembre-se, porém, que esta não é a mesma coisa que ser ajudado na doutrina.
Quanto mais o espírito de um homem tem sido tratado por Deus, tanto mais ajuda pode
receber. E é verdade, além disto, que sempre que o Espírito de Deus Se
movimenta pela doutrina, pelas palavras, ou pela eloquência. Sua atitude está
inteiramente mudada. É uma lei invariável: que à medida em que alguém é ajudado
depende da condição do seu espírito.
Agora, devemos compreender claramente o que
significa ser edificado. Não pode significar pensamentos expandidos, nem
compreensão melhorada, nem maior acúmulo doutrinário. Simplesmente significa
que meu espírito mais uma vez entrou em contato com o Espírito de Deus. Não
importa através de que o Espírito de Deus Se movimenta, seja na reunião, seja
na comunhão individual; não sou menos nutrido e vivificado. Meu espírito é bem
como um espelho, que é polido cada vez.
Expliquemos o assunto assim: tudo quanto
procede do espírito abrilhanta tudo quanto toca. Como indivíduos, somos muito
semelhantes a lâmpadas — lâmpadas de cores diferentes. A cor, porém, não
interfere com a passagem da eletricidade através dela. Tão logo a eletricidade
flui para dentro dela, ela se acende. Assim acontece com nosso espírito; onde
há o fluir do Seu Espírito, esqueceremos a teologia que aprendemos. Tudo quanto
sabemos é que o Espírito veio. Ao invés do mero conhecimento, temos uma 'luz
interior." Estamos revificados e nutridos na Sua presença.
Anteriormente, nossa intelectualidade nos
tornava impossíveis, mas agora podemos ser facilmente ajudados. Agora compreendemos
por que é difícil para outros receberem ajuda. Entendemos que é necessário
passar muito tempo em oração antes de podermos tocá-los no espírito. Não há
outra maneira de ajudar uma pessoa obstinada. Conforme veremos na lição seguinte,
há um caminho que Deus designou para a eficácia verdadeira.
CAPÍTULO 10
DOIS CAMINHOS MUITO
DIFERENTES
Devemos reconhecer dois caminhos muito
diferentes que existem diante de nós para recebermos a ajuda. Primeiramente, "há
um caminho que parece justo" em que a ajuda é recebida de fora — através
da mente — pela doutrina e pela sua exposição. Muitos até mesmo declararão que
foram grandemente ajudados por esta maneira. Mesmo assim, é uma
"ajuda" muito diferente da ajuda que Deus realmente pretende dar.
Em segundo lugar, devemos ver que o caminho de
Deus é o caminho do espírito que toca no espírito. Ao invés de ter nossa
mentalidade desenvolvida ou de adquirir um armazém de conhecimento, é por este outro
meio de contato que nossa vida espiritual é edificada. Que ninguém se engane;
até que tenhamos achado este caminho, não descobrimos o cristianismo verdadeiro.
Somente este é o caminho para a edificação e inspiração do nosso espírito.
Expliquemos o caso como segue: Se você estiver
acostumado a sermões, sem dúvida você ficaria aborrecido se ouvisse a mesma
mensagem do mesmo pregador duas vezes. Você sente certeza que basta ouvir
aquela mensagem uma só vez. É assim porque seu conceito do cristianismo é
simplesmente doutrina — armazenar conhecimentos correios na sua mente. Você não
percebe que a edificação não é uma questão de doutrina mas, sim, do espírito?
Se seu irmão fala através do espírito, você será lavado e purificado cada vez
que o espírito dele toca em você, independentemente de quão familiar é o
assunto ou de quantas vezes você já ouviu aquele tema específico. Qualquer
ensinamento ou doutrina que não resulta na revificação do espírito pode somente
ser considerado preceito ineficaz.
Além disto, há algo bem notável em quem foi
quebrantado. Se você for alguém que realmente é quebrantado, você descobrirá
que não somente poderá prestar socorro, como também, ao assim fazer você também
é ajudado. Alguém lhe faz uma pergunta, e ao respondê-la você é ajudado. Você está
orando com um pecador que está buscando ao Senhor, e, mais uma vez, você está fortalecido
no íntimo. Você pode ser guiado a falar severamente com um irmão que deslizou; não
somente o espírito dele é revificado, mas você também é edificado. Você pode
receber ajuda de todo contato espiritual. Você fica maravilhado porque o corpo
inteiro está suprindo você como membro. Qualquer membro do corpo pode suprir sua
necessidade, e você é ajudado. Você se torna um recipiente para o suprimento de
todo o corpo. Que maravilha! Verdadeiramente você pode regozijar-se: "A
riqueza do Cabeça é do corpo, e a do corpo é minha." Quão grandemente isto
difere do mero aumento do conhecimento mental!
Esta capacidade de receber ajuda — deixando
que o espírito de outra pessoa toque em nosso espírito — é prova que a pessoa é
quebrantada. A habilidade não impede de receber ajuda; mas é evidência que a casca
exterior é mais dura do que outras. Na misericórdia do Senhor, uma pessoa
habilidosa deve ser tratada drasticamente, quebrantada muitas vezes e de muitas
maneiras até que, um dia, possa receber o suprimento da igreja inteira.
Perguntemos a nós mesmos: "Podemos receber este suprimento de outras pessoas?"
Se não pudermos receber, é provável que nossa casca dura impeça o encontro com o
espírito do nosso irmão que é liberado. Se, porém, formos quebrantados, somos
ajudados tão logo que o espírito dele se movimente. A pergunta, portanto, não é
quão poderosos são os espíritos, mas sim: como os espírito se tocam um ao
outro? É este contato entre os espíritos que revifica e edifica a pessoa. Quão
grande é a necessidade, pois, para o homem exterior ser quebrantado! Não pode
haver dúvida de que isto se constitui em exigência básica para sermos ajudados
e para ajudarmos os outros.
A Comunhão no Espírito
Embora haja muitos tipos diferentes de
comunhão, há a comunhão espiritual que é muito mais do que o intercâmbio de
ideias e opiniões. É a interação de espíritos. Este tipo de comunhão é possível
somente depois de nosso homem exterior ter sido despedaçado, sendo nosso espírito
liberado desta maneira, para tocar no espírito de outras pessoas. Neste
compartilhar do espírito, experimentamos a comunhão dos santos e compreendemos
o que as Escrituras querem dizer com a "comunhão de espírito." É
verdadeiramente uma comunhão de espírito, e não um intercâmbio de ideias. Mediante
esta comunhão no espírito podemos orar de comum acordo. Porque muitos oram
através da sua mente, independentemente do seu espírito, é difícil para eles
achar outra pessoa com a mesma mente que pode orar em harmonia com eles.
Qualquer pessoa que nasceu de novo e que tem o
Espírito Santo habitando nela pode ter comunhão conosco. Isto é possível porque
nosso espírito está aberto para a comunhão, pronto para receber o espírito do nosso
irmão, e para ser recebido por este. E, desta maneira, podemos tocar o corpo de
Cristo, pois nós somos o corpo. Podemos compreender quando dizemos que nossos
espíritos são o corpo de Cristo? Realmente, "Um abismo chama outro abismo"
(SI 42:7). As profundezas do seu ser estão clamando por um toque das minhas profundezas;
e eu estou clamando por um toque das profundezas da igreja inteira. Esta é a
comunhão das profundezas, a chamada e a resposta de uma para outra. Esta é a
única coisa mais necessária para sermos úteis diante do Senhor e para tocarmos corretamente
no espírito da igreja.
Uma Meiguice Além da Imitação
Quando sugerimos que devemos ser meigos, não
estamos procurando persuadir você a fingir-se meigo. Se você assim fizer, logo
descobrirá que até mesmo esta meiguice fabricada pelos homens precisa ser
destruída. Devemos aprender de uma vez por todas, que o esforço humano para
imitar a meiguice é fútil. Tudo deve ser do Espírito Santo, pois somente Ele
conhece nossa necessidade e disporá as circunstâncias que levarão ao
quebrantamento de nosso homem exterior.
É nossa responsabilidade pedir luz da parte de
Deus a fim de que possamos reconhecer a mão do Espírito Santo e, de boa mente,
submeter-nos a Ele, reconhecendo que tudo quanto Ele faz é certo. Não sejamos
como cavalos ou mulas sem entendimento. Pelo contrário, entreguemo-nos ao
Senhor para Ele operar em nós. À medida em que você se entregar ao Senhor,
descobrirá que Sua obra realmente começou cinco ou dez anos antes, embora não
pareça que produziu qualquer fruto em você. Hoje, veio uma mudança. Finalmente,
você pode orar: "Senhor, eu era cego, sem saber como Tu me estavas guiando.
Agora, vejo que desejas quebrantar-me. Para isto, entrego-me a Ti." Então,
tudo que era infrutífero durante cinco ou dez anos começa a dar fruto. Achamos
o Senhor entrando com perícia para destruir muitas coisas de cuja existência
nem sequer tínhamos consciência. Esta é Sua obra de mestre: despojar-nos do
orgulho, do amor-próprio, e da exaltação de nós mesmos, a fim de que nosso espírito
seja liberado e exercitado para a utilidade.
Duas Perguntas Correlatas
Duas perguntas surgem aqui para a nossa
consideração. Visto que o quebrantamento do homem exterior é a obra do Espírito
Santo que desafia as imitações feitas pelos homens, devemos procurar por fim a
qualquer ação da carne que reconhecemos; ou devemos esperar passivamente até
que maiores luzes venham da parte do Espírito Santo, o Realizador da obra?
Decerto é correto e apropriado que acabemos
com toda atividade carnal, mas devemos ver como isto é vastamente diferente de
imitar a obra do Espírito. Ilustrando: embora eu seja orgulhoso, devo recusar
todo o orgulho, mas não finjo ser humilde. Ou, posso perder a calma com as
pessoas, mas mantenho esta tendência sob controle; isto, porém, não me torna manso.
Enquanto o negativo está lutando para ser reconhecido, devo resisti-lo sem
trégua. Mesmo assim, não fingiria que possuo o positivo. Esta é a distinção
importante: o orgulho é uma coisa negativa, de modo que devo tratar com ele; a
humildade é algo positivo; não posso, portanto, imitá-la. Embora eu deva
colocar ponto final em todas as atividades da carne que me são conhecidas, não
preciso imitar a virtude positiva. Tudo quanto preciso fazer é entregar-me ao
Senhor, dizendo: "Senhor, não há razão para exercer minhas forças para imitar.
Estou confiando em Ti para fazer a obra." A imitação exterior não é de
Deus; é do homem. Todos quantos buscam ao Senhor devem aprender de dentro, e
não apenas conformar-se exteriormente. Devemos permitir que Deus termine Sua
obra dentro de nós antes de podermos esperar que a evidência dela seja
manifestada do lado de fora. Tudo quanto é fabricado externamente é irreal e
condenado à destruição. Quem possui uma coisa falsificada, sem o saber,
defrauda a outros bem como a si mesmo. Assim como o comportamento falsificado
se multiplica, a própria pessoa chega a acreditar que ela realmente tem esta
personalidade. Frequentemente, é difícil convencê-la da sua irrealidade, porque
não pode distinguir o certo do errado. Logo, não devemos procurar imitar exteriormente.
É muito melhor ser natural; assim fica aberto o caminho para Deus operar em
nós. Sejamos singelos, e não imitemos coisa alguma, tendo plena confiança de
que o próprio Senhor acrescentará Suas virtudes a nós.
A segunda pergunta é: Alguns são naturalmente
dotados com uma virtude tal qual a mansidão; há uma diferença entre a mansidão
natural e a mansidão que vem através da disciplina?
Há dois aspectos a serem considerados ao
responder a esta pergunta. Primeiramente, tudo que é natural é independente do
espírito, ao passo que tudo quanto vem através da disciplina do Espírito Santo
está sob o controle do espírito, e se move somente à medida em que o espírito
se move. A mansidão natural realmente pode tornar-se um impedimento para o
espírito. A pessoa que é habitualmente mansa é mansa em si mesma, e não
"no Senhor." Suponhamos que o Senhor queira que ela se levante e
pronuncie algumas palavras enérgicas. Sua mansidão natural a impediria de
seguir ao Senhor. Diria, pelo contrário: "Ah, isto eu não posso fazer. Nunca
na minha vida pronunciei palavras tão duras. Que outra pessoa o faça. Eu simplesmente
não posso." Você vê como sua mansidão natural não está sob o controle do
espírito. Qualquer coisa que é natural tem sua própria vontade e é independente
do espírito. Aquela mansidão, no entanto, que vem através do quebrantamento
pode ser usada pelo espírito, porque não resiste nem oferece sua própria
opinião.
Em segundo lugar, uma pessoa naturalmente
mansa é mansa apenas enquanto você está de acordo com a vontade dela. Se você a
força a fazer o que não gosta de fazer, mudará de atitude. Nas assim chamadas
virtudes humanas, falta o elemento de abnegação. É óbvio que o propósito de
todas elas é construir e estabelecer a vida do próprio-eu. Sempre que aquele próprio-eu
é violado, as virtudes humanas desaparecem, todas elas. As virtudes que brotam
da disciplina, do outro lado, somente são possuídas depois da vida feia do
nosso próprio-eu, ali é vista a virtude verdadeira. Quanto mais o próprio-eu for
ferido, tanto mais fulgurosamente brilha a verdadeira mansidão. A mansidão
natural e o fruto espiritual, portanto, são basicamente diferentes.
Uma Exortação Final
Tendo ressaltado a importância de ser
quebrantado o homem exterior, tenhamos cuidado para não procurar levá-lo a
efeito artificialmente. Devemos submeter-nos sob a mão poderosa de Deus,
aceitando todos os tratamentos necessários. À medida em que o homem exterior é
quebrantado, o interior é fortalecido. Alguns talvez achem o homem interior ainda
fraco. Não ore por forças para corrigir este defeito, pois a Bíblia nos ordena:
"Fortalecei-vos." Proclame que é seu alvo ser forte. A coisa maravilhosa
é que depois do seu homem exterior ter sido quebrantado, você pode ser forte sempre
que quiser. O problema da força é resolvido com o problema do homem exterior.
Ao desejar ser forte, você é forte. Ninguém pode bloquear seu caminho. O Senhor
diz: "Sê forte." No Senhor você também diz: "Sé forte." E
você descobre que você é forte.
O homem interior é liberado somente depois de
o homem exterior ter sido quebrantado. Este é o caminho básico para o serviço
de Deus.

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